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Linguisteria 1 - Holófrase/Intervalo

Notas clínicas sobre a loucura

Aline Dornelles

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Na experiência cotidiana da clínica a loucura por vezes passa longe do check das psicoses, não se confunde com desencadeamento delirante ou eclosão alucinatória. O que encontramos com frequência é um fenômeno que se manifesta à revelia das estruturas freudianas. Algo da ordem de uma aderência a significação e resistência ao significante, onde a primeira passa a não operar como efeito da cadeia e sim como causa suficiente.

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O que se escuta, com frequência, principalmente em inícios de análise, é algo mais palatável socialmente, quase admirável: “quero amar de verdade”, “quero ser completo, inteiro nas relações que estabeleço”, “quero criar meus netos com amor incondicional.”

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A cultura aplaude e o analista, se não estiver advertido, pode aplaudir junto. Mas se tem algo que a clínica ensina, é desconfiar. A leitura que Lacan faz da loucura, especialmente a partir das figuras hegelianas da” bela alma”  da” lei do coração” e do” delírio da presunção” denuncia o problema que para muitos de nós é um impasse clínico:não se trata de um quadro nosográfico, mas de uma posição particular diante do discurso.

 

Na clínica , isso aparece quando o sujeito tenta reescrever sua  trama a partir de uma revelação que promete coerência retroativa.

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“Mudar as razões das minhas escolhas”, “respeitar a minha verdade”, “aproveitar junto aos meus netos o que faltei a meus filhos”.. Percebe-se que a loucura passa a tentativa de uma operação lógica, fazendo do significante o ponto de sutura da divisão, transformando efeito em causa e convertendo um enunciado em fundamento ontológico.

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A loucura pode ocorrer sem qualquer desorganização manifesta, por ser uma posição e por ser frequente. 

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O risco clínico não está em escutar tais enunciados e sim em legitimá-los como “tomada de consciência”. O setting estagna ou patina quando o analista cede a isso. A análise não deve ser o lugar onde o falante encontra a confirmação de sua verdade última.

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A oposição entre intervalo e holófrase, ajuda a situar o ponto lógico. No lugar onde o intervalo se estreita, a palavra deixa de circular e começa a coagular. A loucura comparece como essa coagulação da significação e a cultura contemporânea favorece esse movimento intensificando a intolerância à falta. Acessem a tv aberta em horário nobre e voces verão o fenômeno acontecer in loco e ao vivo.

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O sujeito não quer mais desejar, só quer coincidir consigo mesmo, quer ser inteiro e quando acredita ter encontrado o significante que lhe promete isso, instala-se a posição de louco.

 

Obviamente essa posição vem endossada de uma crítica ao entorno, relações rasas, sociedade hipócrita, amores líquidos. A bela alma percebe o que os outros ignoram. Hegel descreveu a cena, Lacan formalizou e a clínica confirma a cada sessão. 

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Eidelsztein elucubra que a loucura não é somente um fenômeno, mas também uma possibilidade estrutural do falante.

 

Se a algo que a prática ensina, é que a sensação de ser inteiro é permanente por estrutura e que a análise só se sustenta enquanto recusa fazer fiança a qualquer promessa de completude.

 

Aline Dornelles| AE/EPE

 

Ensaio produzido  para grupo de Linguisteria 1- Holófrase/ Intervalo

março/26

Sujeito em Lacan

Diogo Ventura

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Se o discurso psicanalítico é necessário e pertinente, é porque há uma configuração subjetiva produzida pela modernidade científica, representada pelo tão conhecido slogan cartesiano "penso logo existo", que condiciona a existência a um cogito hipervalorizado que aspira ao protagonismo triunfante do Eu. Tal pretensão é, na reforma do entendimento proposto por Lacan, um equívoco que os psicanalistas não podem deixar de considerar, uma vez que o tratamento analítico opera sobre um sujeito que escapa ao domínio de um Eu plenamente consciente de si e autónomo em seu ser e agir.


Esta equivalência entre sujeito, Eu e agente (quiasma da agência) não se confirma na experiência analítica, a qual pretende deixar evidente o sujeito dividido e exposta a disjunção entre o saber e a verdade.


A teoria lacaniana tem atrelada ao conceito de sujeito a teoria linguistérica: fala-se para tentar ser, tentar capturar o sujeito no sentido fechado e último, como solução da angústia da indefinição e do não-saber. É pela via da associação livre que se experimenta a falha da estrutura, mostrando ao falante que:


• as "representações de si" do campo imaginário, são significados frágeis que facilmente cessam de se escrever (inconsistência imaginária);
• que a bateria de significantes permite uma combinatória infinita e incapaz de extinguir o campo da dúvida, denotando que não há o significante que promova o saber total e que tal tentativa não cessa de se escrever (incompletude simbólica);
• o sujeito é constituído por um furo, a partir do encontro traumático com o Outro radicalmente diferente que faz da completude um impossível que não cessa de não se escrever (impossibilidade lógica).


O sujeito da ciência é o resto que a própria ciência não consegue explicar com as suas produções de sentido e sistemas metodológicos. É desse sujeito que fica de fora (foracluido, ou talvez denegado seja um termo mais adequado) que a psicanálise se ocupa e que uma análise quer produzir. Por isso o analista não escuta o sentido ou as explicações que o analisante traz (que são efeito ou ecos dos discursos do mestre), mas o que escapa ao sentido, os furos da explicação, evidenciando o limite da ciência que o sujeito tem de si.


Freud já havia apontado para o facto de que o Eu não é senhor em sua própria casa. Lacan radicaliza essa descoberta ao situar o sujeito como aquilo que se constitui a partir da entrada no campo da linguagem. O sujeito não pre-existe aos significantes que o representam, mas surge precisamente como efeito e tentativa contínua de por eles se fazer representar.


Se, com Freud, visualizamos um inconsciente profundo, onde estão guardados conteúdos recalcados que uma análise tenta encontrar (o que aponta para um sujeito entificado e soterrado nos escombros de uma memória esquecida), Lacan propõe outra ontologia, numa outra topologia para o sujeito. A figura topológica moebiana de que ele se serve é desprovida de profundidade, é bi-dimensional, o que aponta para um sujeito como superfície, superfície discursiva. O inconsciente é o avesso de uma superfície discursiva, um inconsciente-enunciação que se mantém em relação de continuidade com um consciente-enunciado que o ignora. É no encontro com esse avesso que o sujeito emerge como efeito da divisão significante. Esse repetitivo encontro tem efeitos de verdade. Se a verdade está em relação de disjunção com o saber, a análise pretende promover a revolução epistemológica de os juntar. A verdade está na causa do dizer, da enunciação, e aponta para a falta, para o objeto a, causa do desejo. Juntar a verdade ao saber é agregar ao saber a sua condição ignorante, seu furo, sua falta. A figura moebiana aponta para lógicas discursivas e posições subjetivas na relação do falante com o discurso.


A análise não pretende uma produção epistemológica, mas uma revolução epistemológica. Não se trata de construir um novo saber, mas de construir um outro tipo de relação com o saber, que leva em consideração a verdade do sujeito. A verdade não é falada, a verdade fala. A verdade não é ôntica, mas ética. Não é apreensível pelo saber/conhecimento, mas se faz sempre presente, como insabível, como objeto perdido, como causador e causação do desejo.


A análise, e a verdade que ela veicula, pretende promover o nascimento de um sujeito que não é um ente, não tem substância nem essência. Sujeito que nasce ao incorporar a sua condição irrevogável de falta-a-ser na sua tentativa de ser pela via da aposta no campo da linguagem e no Outro fiador.

O mal-estar na cultura moderna e a particularidade de cada sujeito*

Josiane Tibursky

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À luz do capítulo 1 do volume I do Estruturas clínicas a partir de Lacan, de Eidelsztein, fica claro por que nós, analistas, sustentamos — e por que é tão importante que o sustentemos — que não existe homem, mulher ou ser humano. Ao fazermos isso, estamos apontando para a lógica da operação significante, estamos defendendo a presença do sujeito em sua ausência, estamos mantendo a incompletude do Outro, lógicas sem as quais nossa prática simplesmente não existe.

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Nosso objeto de estudo é furado, incompleto e, ainda por cima, deslizante, evanescente. Podemos até entender o ímpeto de tamponar essa falta, o que não podemos é aceitar — ou, ainda pior, contribuir para — o fechamento ou a tentativa de fechamento desse buraco no nosso campo. É isso o que nosso analisante faz o tempo todo — e bem sabemos que é exatamente por isso que ele sofre —, então não podemos negar essa falta, pois é justamente com ela e a partir dela que operamos, é ela que permite e está por trás de cada conceito psicanalítico.

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O sujeito que a ciência tenta apagar, negar-lhe espaço desde o apagamento da primeira pessoa, com seu tratamento impessoal da letra, é o mesmo sujeito que nós, analistas, queremos que se apresente. Não nos interessa a validade de um enunciado, e sim a incidência subjetiva da verdade; porque a verdade tem a ver com o dizer, não com o dito; é o ato de dizer que dinamiza, dialetiza, mobiliza o sujeito. E é esse movimento que nos interessa; é a abertura desse espaço que buscamos. Só é possível caminhar quando se aceita e se aprende minimamente a operar com a instabilidade, e, de modo análogo, nosso analisante só vai ver seus sintomas caírem quando também ele aceitar e aprender minimamente a operar com essa incompletude, aprendendo a habitar onde não “é”.

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A psicologia, enquanto ciência moderna, segundo Eidelsztein, realizou “a maior e mais prestigiosa manobra objetivadora que já existiu”, transformando o sujeito em objeto de estudo, um objeto de conhecimento científico, suturando-o a ponto de poder dar-lhe unidade: o homem/ser humano. E desse apagamento das diferenças das particularidades próprias da condição subjetiva decorrem “efeitos de mal-estar muito especiais na subjetividade moderna”. Seguindo nessa lógica, não precisamos ser gênios para perceber que a tentativa de manutenção dessa “unidade”, dessa “totalidade”, vai acarretar uma dificuldade extrema em operar com o diferente, desembocando em fanatismos religiosos e segregação do próximo.

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E qual é a ética da psicanálise, enquanto resposta terapêutica ao mal-estar na cultura moderna, a esse estado da arte? Ela justamente oferece a recuperação da condição particular de cada sujeito (ou seja, a inclusão da sua verdade e do seu desejo, sem a exclusão do próximo — é fundamental que se saliente), para atenuar o sofrimento excessivo, partindo de um discurso racional e formalizado. Atentemos para “excessivo”, senão, vamos nós, nos últimos minutos da prorrogação, também suturar o buraco.

 

* texto para o encontro de Linguisteria 1 do dia 01/10/2025

Sobre a loucura no ensino de Lacan (parte c)

Josiane Tibursky

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TEXTO PARA O ENCONTRO DE LINGUISTERIA 1 DO DIA 01/04/2026

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Para Lacan, o eu é uma estrutura paranoica, e o falante atribui a si mesmo a bondade e, ao outro, a maldade, de onde advirá toda sorte de confronto, disputa e guerra. Não há, portanto, que se reforçar o eu, muito pelo contrário, o analista deve buscar, a partir de seu ato, justamente a destituição subjetiva do analistante, horizonte possível de saúde.

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Para Hegel, a loucura é algo próprio da individualidade moderna, enquanto, para Lacan, é característica do ser humano. Segundo o psicanalista francês, onde houver ser humano, haverá loucura, e isso independe da modalidade de subjetividade existente à época. Contudo, a partir da presença da ciência, a loucura ganha contornos específicos, e, nesse sentido, afirma Lacan, a psicanálise tem efeitos positivos e negativos. 

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Eidelsztein explica que Hegel não possui a noção de identificação ideal, diferentemente dos psicanalistas, que contam com a noção de ideais simbólicos, o que torna possível “distinguir claramente o que é ideal para uma sociedade ou outra, sem, com isso, aceitar que não haja ideais para alguma delas”. Ou seja, “a loucura não é necessariamente algo moderno, pois implica, pelo menos no campo das noções da psicanálise, a imediatez das identificações”. Esse é o ponto. O que enlouquece é da ordem do aristotelismo, já sabemos, é a crença de “ser” algo em essência, sem que se seja atravessado pelo Outro para sustentar ser isso que se acredita ser, lembrando que esse “Outro” é: 

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  1. a linguagem, o que inclui um saber;

  2. o lugar “terceiro”, que implica um poder arbitrário e a garantia da verdade, gerando assim a ilusão de onipotência;

  3. as encarnaduras desse lugar terceiro para o falante em sua história pessoal;

  4. os substitutos dessas figuras edipianas.

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Logo, a loucura é acreditar ser sem passar por esse modo de ser intermediado pelo Outro. Para Lacan, afirma Eidelsztein, esse “acreditar-se” “remete ao cerne da dialética do ser, que é o desconhecimento essencial da loucura” — “a loucura implica fundamentalmente a função do desconhecimento”, ela “é o desconhecimento em si mesma”. A loucura é engendrada pela própria língua, pela possibilidade que apresenta de se formular essa afirmação “Eu sou isto”. O falante enlouquece, portanto, porque acredita ser x, y ou z, identificação essa que promove a estase do ser, em vez de oportunizar a passagem pela dialética da composição social, que fornece a condição do sujeito por meio do Outro. 

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O sujeito sabemos, é essencialmente dividido, e a loucura é então uma tentativa do sujeito de escapar dessa divisão, o que lhe custa a perda de sua verdade, que, também sabemos, é sempre ficcional e semidita. Eidelsztein afirma que “a loucura é essencial para entender o ser humano, pois está intimamente associada à liberdade e é o oposto da articulação com o Outro”. Dito isso, talvez estejamos vivendo um entre os momentos mais importantes de se estudar a loucura e atuar sobre ela, tanto para nos situarmos historicamente no tempo quanto para, no setting, podermos apontar para a reinscrição do sujeito dentro do laço social a partir de uma ética dialética que não promova o seu esgarçamento total.

Sobre o diagnóstico lacaniano (parte d)

Josiane Tibursky

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TEXTO PARA O ENCONTRO DE LINGUISTERIA 1 DO DIA 06/05/2026

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No item c, vimos que a loucura é engendrada pela própria língua, pela possibilidade que apresenta de se formular a afirmação “Eu sou isto”, e, agora, no item d, Lacan aponta a própria psicologia como promotora dessa loucura, por objetivar o ser humano ao “convertê-lo em objeto de estudo” e por ser caracterizada pelos ideais sociais que sustenta, não só endossando, em seu discurso, como também fortalecendo, nos consultórios, o delírio de infatuação. 

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O problema principal em relação a esse papel da psicologia é que ela, diferentemente da filosofia e da religião, transmite os ideais da sociedade com o aval da ciência. E é aqui que se mostra fundamental a participação do psicanalista na discussão científica, para denunciar que a psicologia não é científica, “pelo menos em tudo o que sustenta, mas que pode se tornar uma máquina de sustentar e promover ideais sociais, que, sem dúvida, aumentam a loucura que supostamente estaria destinada a combater”. E o problema, aponta Lacan, é que falta o espírito científico na formação dos analistas, o que os deixa sem argumentos para a discussão científica e também sem ferramentas para operar sobre o sujeito da ciência. 

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Estamos diante de dois elementos que se juntam e compõem a loucura: a possibilidade de estabilização entre o dito e a coisa, patrocinada pelo verbo ser, e a petrificação do significante, provocada pelo fomento dos ideais. Analista é como revisor, deve duvidar de tudo o que lê, e o faz porque precisa que o analisante se conte na contagem, devendo estar ancorado pelo desejo do analista, impuro, é verdade, mas não embasado num ideal comum: “Qual é a sua responsabilidade em relação ao que você está se queixando?”. Ou seja, estamos diante da tentativa de Lacan de recuperar a função da lógica e ética do inconsciente, “aquela motorizada pela pergunta “por quê?”, referindo-se à causa”. Sem isso, cai-se na ideia de que se pode ser causa de si, e vemos o esgarçamento dos laços sociais e a tentativa cada vez mais feroz de aniquilação do outro. 

A psicanálise com resposta ao mal-estar do sujeito moderno

Patrícia Mezzomo

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A revolução científica que culmina com o nascimento da modernidade, opera um corte epistemológico com o pensamento medieval e traz, não somente novas descobertas, como também inaugura novas formas de pensar sobre o conhecimento, sobre o saber e sobre a realidade.

 

Antes disso, tudo estava dado ao homem medieval. Tratava-se de um homem que sabia sobre o seu fazer e existir, pois esse saber encontrava-se alicerçado em um tipo de saber religioso, divino, que lhe determinava enquanto homem e quanto ao seu destino. O homem medieval não duvidava. Isso não significa de maneira alguma, afirmar que ele não sofria, pois sabemos que existe um mal estar inescapável a todo sujeito falante.  Esse mal-estar que se sustenta sobre um fundamento de linguagem, sofre modificações de acordo com as mudanças culturais.

 

O mal-estar do sujeito medieval era radicalmente diferente do nosso, pois estava ancorado em uma estrutura de mundo e um sistema de crenças completamente distintos. Para o homem medieval, o mundo era um palco onde a vida era um teste de sua fé. O maior sofrimento não vinha de um conflito psicológico interno, mas do medo da condenação eterna e da perda da graça divina. A vida terrena, com suas dores e privações, era vista como uma penitência ou uma oportunidade de purificação para alcançar a salvação da alma.

 

A transição de um saber divino para um saber científico irá, portanto, moldar um novo tipo de humano e, com ele, um novo formato de mal-estar específico de sua época. Dirigir-se à ciência e não mais a Deus, implica uma modalidade muito peculiar de relação do sujeito com o Outro. Podemos então, entender que o grande Outro do sujeito moderno é a ciência.

 

Sujeito moderno, porque é ele, justamente esse novo tipo de homem, efeito de seu tempo, efeito da ciência. A sociedade ocidental moderna é caracterizada como "sociedade científica" e os sujeitos de tal sociedade serão, consequentemente, "sujeitos da ciência". Evidentemente é muito diferente se dirigir a um Outro concebido, por exemplo, como um único Deus personificado ou como uma ciência impessoal e anônima. Isso tem efeitos importantíssimos, sendo o principal deles o sujeito dividido, que Lacan escreve como "S".

 

Em nossa sociedade moderna o mal-estar, portanto, possui íntima relação com a ciência que pode ser entendida como uma manobra sobre o saber. E, por saber, desde o corte mítico operado por Sócrates, entende-se como uma ligação entre os significantes vinculada a certas exigências de coerência e razão.

 

É aqui que se encontra o operador fundamental que produz o sujeito dividido da ciência. A ciência, ao operar com a exatidão, a adequação do que é dito sobre algo com o que esse algo é, não permite que a verdade subjetiva do cientista cumpra papel algum em suas argumentações ou teorias. Nunca o que é verdade para alguém, por mais prestigioso que seja, pode ser a justificação de nenhum enunciado científico. Entre estas condições gerais exigidas pelo método científico, a verdade do sujeito foi erradicada.

 

Diante disto, temos a formulação do mal-estar moderno. Não se trata mais de condenação eterna, mas sim, de um apartamento da verdade, pois o saber científico foraclui a verdade.

 

E é exatamente como resposta a esse mal-estar específico do sujeito moderno que surge a psicanálise, pois, como já apontado por Freud, ela restitui a função da verdade no campo do saber científico. Em síntese, a Ciência é uma manobra sobre o saber que produz o sujeito e foraclui a verdade. A psicanálise, por sua vez, restitui a função da verdade no campo do saber científico, sendo ela a resposta adequada ao mal-estar da linguagem.

 

Cabe então ao psicanalista, apoiado na formalização proposta acima, operar o ato de abertura que tem como finalidade o campo do sujeito. Se a ciência tenta operar uma manobra sobre o saber que foraclui a verdade, o ato seria então o corte que se abre para a verdade? Acredito se tratar aqui de uma verdade que é particular a cada um. Uma verdade que não coaduna com um saber estabelecido e provavelmente vá contra. Seria o que Lacan chamou como a verdade do desejo? Por lógica então, a ciência tenta erradicar o desejo do cientista?. Mas é possível fazer ciência, ou qualquer outra coisa, sem desejo?

 

Em seu texto sob a subversão do sujeito e a dialética do desejo, Lacan aponta que essa tentativa de erradicação do sujeito fracassa no campo científico, ou seja, o sujeito insiste em se apresentar, mesmo quando não “convidado”.  O que me prende diante de uma dúvida: a ciência foraclui realmente o sujeito ou apenas tenta e por isso fracassa? Se ela fracassa em foraclui-lo, ele estaria então participando da ciência? Se o sintoma é o indicador do desejo, por conclusão, a ciência seria o sintoma do homem moderno? A ciência é a tentativa de responder à questão do sujeito, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, tenta excluí-lo da resposta?

 

Evidentemente não seria pertinente esgotar o tema em tão poucos caracteres. Encerro portanto com estas perguntas que se propõem a abrir o tema da articulação entre ciência, sujeito e verdade, seguindo a indicação de que é na abertura e não no fechamento que encontramos o espaço para o sujeito e para a psicanálise.

A psicanálise como a terceira via

Patrícia Mezzomo

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Com o surgimento da ciência e do homem moderno, vemos surgir também o anúncio de um novo mundo, o antropocentrismo, onde o lugar central agora é ocupado não mais pela autoridade divina, mas sim por um saber racional, lógico e metodológico.

 

Está dado que temos um novo tipo de homem, uma nova forma de manobrar o saber, e também um novo tipo de mal-estar. Mas, como sabemos em psicanálise, o sintoma, aqui denominado mal-estar, sempre traz consigo uma mensagem ainda não decifrada.

 

Ocupar o centro do mundo não parece pouca coisa. Desconfio que esse lugar do centro possa ser o indício que culmina em tantas tentativas de responder e solucionar o mal estar produzido por tal “cargo”. Mas como esse “maquinário” de sofrimento moderno funciona?

 

A ciência surge como um novo tipo de manobra sobre o saber, ocupando o lugar do saber divino. Essa manobra exige uma lógica racional, com suas regras que produzem como efeito colateral, o sujeito. Tanto sujeito, quanto ciência, estão agora submetidos a regras rígidas, que erradicam a subjetividade humana. E como sabemos, que toda erradicação costuma trazer a reboque, o sintoma, é disso que se trata aqui. De um recalque do subjetivo em nome de uma garantia totalitária.

 

Deus foi deposto, mas a busca do Grande Outro Completo parece não ter caído junto com a ordem divina. Estamos sempre tentando fazer sutura com alguma garantia total, sem falhas, que nos dê conta das faltas e dos furos que são intrínsecos a qualquer ordem simbólica. E tudo que não se encaixa nessa totalidade, tende a ser posto “de lado” retornando como sintoma, como diria o próprio Freud.

 

No texto de Eidelsztein - As estruturas clínicas a partir de Lacan - ele nos apresenta de maneira muito clara, a operação dessa lógica moderna que divide o sujeito causando o mal-estar da nossa atualidade e as tentativas de fazer sutura a partir de diversas modalidades que almejam responder ao que ficou de fora, buscando trazer de volta a verdade na forma da subjetividade do sujeito.

 

A própria ciência tenta fazer sutura do sujeito que ela mesma produziu. Para isso, ela usa de artifícios como a lógica simbólica e a psicologia.

 

Com a lógica simbólica vemos a tentativa de criar um sistema de pensamento puro e perfeito, alicerçado numa linguagem superior idealizada, batizada de metalinguagem, no Outro Completo representado pelo universo do discurso. Nela, a separação entre verdadeiro e falso reduz a verdade a um valor binário e estático, ignorando a força dialética e o movimento que ela tem para o sujeito.

 

Já na psicologia a manobra de sutura é feita na transformação do sujeito em objeto de estudo, chamando-o de “Homem”. O sujeito é tomado em uma aparente unidade, perdendo toda possibilidade de condição particular e podendo então ser um objeto de conhecimento científico, erradicando o efeito sujeito, na tentativa de suturá-lo, por meio da objetivação.

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Ambas as abordagens tentam dar conta do sujeito pela via da totalidade, mas ele insiste em se apresentar no particular. A tentativa de sutura é falha em seu alicerce: a própria ciência se contradiz nessa suposição de Outro completo com o teorema de incompletude de Gödel, o princípio de incerteza de Heisenberg e a pesquisa de Church, que surgem para provar que a ordem simbólica é, por natureza, incompleta.

 

Essa verdadeira usina de mal-estar causada pela universalização gerada pela ciência e pela psicologia, onde todos os sujeitos são considerados igualmente, apagando assim as diferenças particulares próprias da condição subjetiva, resulta em efeitos muito especiais na subjetividade moderna.

 

Vemos entre eles a política de segregação e o que Freud chamou de "narcisismo das pequenas diferenças", onde os seres humanos modernos, aqueles do final deste século, desesperam-se tentando encontrar a diferença que fundamenta sua identidade.

 

No campo religioso e místico, surgem respostas ao mal estar, objetivando um retorno ao irracional, que foi gradualmente erradicado pela racionalidade científica e que contempla a função da verdade subjetiva. A ciência impõe por toda parte um discurso racional que exclui a verdade. Os fanatismos religiosos reintroduzem essa verdade, mas com base na discriminação e na irracionalidade das explicações.

 

A psicanálise, então, surge não como uma ciência ou religião, mas como uma terceira via, um discurso formalmente comunicável que se oferece para a recuperação da condição particular de cada sujeito.

 

Temos aqui diferenças interessantes no ferramental moderno para lidar com o mal-estar humano.

 

A ciência constroi sua própria versão de sujeito como um ser totalmente racional, sem falhas de memória e sem ambiguidade se alinhando a uma fantasia de totalidade imune ao furo. A religião tenta reintroduzir a verdade com base na irracionalidade das explicações, mantendo uma garantia divina detentora de um saber total. Já a psicanálise opera no sentido oposto, sem fazer sutura. O que interessa está no espaço, na hiância. Nesse quesito, parece ser a única resposta que não recorre ao tamponamento, mas sim à formalização da falta.

 

Ao formalizar, ela não responde, não fecha, mas abre. Abre ao particular e subjetivo de cada sujeito. Traz de volta a verdade, não como resposta mas sim como espaço, mantendo o campo da falta.

 

Descentraliza o homem antropocêntrico, detentor de um saber coletivo e enganoso sobre si mesmo, para deixar o lugar vazio da verdade de seu desejo, que é sempre faltoso e nunca pode ser totalmente sabido.

O iluminismo psicanalítico

Patrícia Mezzomo

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Se Giordano Bruno foi queimado e Lacan excomungado, se Galileo manteve-se fiel a igreja e Miller adapta Lacan criando seu freudolacanismo, estaria Eidelsztein inaugurando finalmente o iluminismo psicanalítico?

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Acompanhar a obra do autor das Estruturas Clínicas a partir de Lacan nos faz travar contato com uma experiência de iluminação teórica da obra lacaniana. Eidelsztein inaugura a modernidade da psicanálise com o mesmo gesto que a ciência assume ao fundar-se diante da igreja: questionando a autoridade religiosa do nosso campo e instaurando um método alicerçado na lógica. Não mais nos serve a autoridade dos nossos patres familias. O que nos interessa é a fórmula matemática do significante.

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Se a repetição é fruto da linguagem, aqui vemos o campo psicanalítico repetir a história. Com um certo atraso, é claro, mas ainda assim, repetição. Intriga-nos, no entanto, o fato de tentar entender como nosso campo conseguiu até então operar com o sujeito da ciência — o sujeito moderno — utilizando uma psicanálise “medieval”? O que estava sendo feito do nosso ofício, já que, como disse o próprio Alfredo, argumentos sem validação racional não diferenciarão a psicanálise das outras respostas ao mal-estar?

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Mas deixemos essa pergunta ecoar, para nos focarmos, por enquanto, na proposta de Eidelsztein. O rigor do raciocínio científico nos possibilita desbancar o reinado religioso dos nossos mestres, mas sem que percamos de vista suas obras. O entendimento das obras de Freud e Lacan — como dois autores separados — importa à psicanálise como lógica para elaboração de conceitos, e não enquanto a genialidade dessas autoridades. Essa é a urgência do “iluminismo psicanalítico”.

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Não há mais o pai garantidor, mas sim a lógica racional. Sai a garantia fundada na autoridade do dito freudiano e entra a investigação de saberes alicerçada em racionalidade, método e rigor. Repetir o dito de autoridade sem a lógica é fazer da clínica uma religião. É assim porque Deus Freud “quis”. A teoria ganha seu então status de privilégio e se torna a norteadora da nossa ética clínica.

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É isso, e apenas isso, que pode fazer a psicanálise posicionar-se como uma terceira via de resposta ao mal-estar, diferente da religião, da magia ou da própria ciência. É com o conhecimento teórico do objeto psicanalítico — o sujeito como uma questão de linguagem, fruto da manobra científica sobre o saber — que nos habilitamos a operar uma ética apropriada ao seu sofrimento.

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Temos então nosso objeto: o sujeito dividido, criado e erradicado pela ciência. E temos a ferramenta "iluminista" para operar: uma teoria que deve prevalecer sobre a experiência clínica. E é aqui que adentramos o terreno complexo.

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Por décadas, fomos testemunhas dos estragos que o privilégio da prática em detrimento da teoria causou e ainda causa em nosso campo. Temos agora uma inversão deste lugar de destaque: a prática deve ser norteada pela teoria. Mas, se é uma questão de lugar privilegiado, como não incorrermos no mesmo erro? Privilegiar a teoria não nos levaria a foracluir os fenômenos clínicos como verdade subjetiva de cada caso particular? Se a história da psicanálise como "religião" (privilégio da clínica) se manteve na lógica medieval, tomar o caminho da "ciência" (privilégio da teoria) não seria fechar a questão, fazendo uma sutura teórica e assujeitando a clínica?

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Se a psicanálise não é nem religião, nem ciência, mas uma terceira via que "não tampona, mas abre", que tipo de resposta ela deve propor?

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A resposta está na própria estrutura do problema. O que devemos questionar não é "teoria ou clínica?", mas o próprio privilégio. "Não fechar, pois quem fecha é o falo." E nessa lógica, a hierarquia e o privilégio fazem as vezes de falo, subjugando o que não possui seu status de superioridade. Para extrair a falta na clínica, retirando o analisando da lógica fálica, é necessário que seus significantes percam seu status de privilégio. Por que isso não deveria ocorrer ao nosso ofício?

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Privilégio e hierarquia denunciam, então, que experiência clínica ou rigor teórico racional, separados de seu par, estão apenas pondo em ação a regra sintomática do neurótico fálico que, sem perceber, segue tamponando os furos que ele mesmo abre.

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A lógica da hierarquia é excludente, pois sempre mantém um ponto de referência como verdade. Sempre que se tenta totalizar, é a lógica da exclusão que se apresenta, pois o que não for igual deverá arder nas chamas de Salem. A heresia é o diferente. Será que esquecemos que o significante tem como lógica a diferença em si mesmo?

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MAS... E se a "teoria" que vier primeiro for a "lógica da falta"? Parece que aqui encontramos a saída. Se a "teoria" que orienta a práxis é a de que o Outro é incompleto, de que "não há verdade da verdade" e de que "não há metalinguagem", então essa "teoria" não é um saber fechado ou uma cosmovisão. Ela é o oposto de um privilégio; ela é a formalização da própria impossibilidade da hierarquia.

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O "iluminismo psicanalítico" de Eidelsztein, então, não é trocar a "religião" pela "ciência". É usar o rigor lógico-racional para formalizar a própria incompletude. É uma teoria que não tampona a clínica com um saber-mestre, mas que opera como a própria condição de abertura para o espaço onde a verdade-ficcional do falante possa emergir. Não se trata de uma hierarquia, mas da única práxis que, ao saber da falta no Outro, pode escutar a singularidade do sujeito.

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Resta-nos saber se seus seguidores o lerão enquanto teórico ou como mestre.

O pai como álibi - S(Ⱥ)

Patrícia Mezzomo

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Comparar Freud e Lacan fica agora mais fácil se tivermos à mão o segundo capítulo das Estruturas Clínicas a partir de Lacan. O texto nos apresenta a decisão ética tomada por esses dois autores diante da falta.

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Aparentemente Freud, com seu Totem, tomou o caminho do imaginário, tentando dar conta do impossível: a falta estrutural. Sua ficção "salvou" o pai, mas condenou a psicanálise ao Mito, tentando explicar a falta através de um romance familiar de culpa e castigo. Diante do rochedo da castração, Freud parou.

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No Lacan de Eidelsztein, o imaginário cede espaço à formalização. A clínica pode, então, avançar para mais além do pai.

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Inaugura-se o matema S(Ⱥ) para tornar possível a inscrição lógica dessa falha. Isso pode parecer pouca coisa ao leitor menos atento à letra lacaniana, mas nessas duas letrinhas vemos definida a ética psicanalítica por excelência. 

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S(Ⱥ) é uma manobra genial de Lacan para dar conta da falha. Ao invés de tentar esconder a falta com um "Pai Mestre" (como faz a religião ou a neurose), ele cria um símbolo para o próprio buraco. Um significante que diz, justamente, que falta um significante.

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O neurótico usa o Pai como álibi para a falta. "Falta algo em mim porque meu pai falhou, ou porque ele me proibiu". Isso cria a ilusão reconfortante de um Outro do Outro: a crença de que existe alguém que poderia completar o sistema, se quisesse.

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Com S(Ⱥ), essa esperança cai, mas o sistema não trava. Pelo contrário: assim como a √-1, o matema da falta no Outro é um operador que carece de sentido e não tampona a falta. Ele permite que a equação continue girando sem se chocar contra o rochedo freudiano.

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O S(Ⱥ) impede que o sentido se feche em uma "esfera" perfeita. E é graças a esse não-fechamento que a operação clínica acontece. Ao inscrever a falta, a falta aparece. Ao marcar a falta, extrai-se o objeto da falta.

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Se o pai faz função de tamponamento e confirmação do Outro do Outro, a clínica do objeto a se posiciona como a clínica do desejo e não do sintoma. A extração do objeto a é o que sobra quando o álibi do pai cai.

Do "Cogito" ao Delírio

Patrícia Mezzomo

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De Descartes a Hegel, podemos traçar uma trajetória do surgimento do homem moderno, até o seu enlouquecimento?

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E afinal, porque o homem enlouqueceu? Teria ele se apaixonado pelo próprio ego?

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Se fizermos nosso recorte histórico do momento atual, não nos faltarão exemplos dessa lógica que culminou no homem ultramoderno “senhor em sua própria casa”, a despeito do que Freud tentou nos alertar. 

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Estudar a loucura em psicanálise é estudar o moderno de Hegel, o mais que moderno, o eu cartesiano levado às últimas consequências de seu cogito. 

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Esse homem, não só pensa e por isso, existe, como acredita ser o único que pensa da maneira correta! O ego passa a senhor de sua própria casa e também do mundo. Pelo menos é assim que ele almeja.

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Lacan precisou da fenomenologia do espírito para poder elaborar sua teoria da loucura e nós, psicanalistas, somos testemunhas desta teoria, quase que diariamente, visitando nossos consultórios.

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A Bela Alma nos procura em grande sofrimento: “o mundo não é como deveria ser”. E pelo fato do mundo estar ”errado”, a Bela Alma sofre profundamente por não conseguir colocar sua lógica para operar neste mesmo mundo. E a culpa é do mundo, das pessoas que não conseguem seguir de acordo com a sua lei do coração. O sofredor segue então cristalizado em um ideal narcísico de coerência e bondade, descolado da realidade e aderido ao seu delírio de infatuação.  Diana Rabinovich e Pablo Munoz nos explicam que infatuar tem a mesma origem latina da palavra folie, que significa loucura. Infatuar tem a ver com inchaço. O louco está inchado. Inchado em seu ego. Justamente por isso, seu desejo individual passa a ter força de lei e na impossibilidade de aplicação desta lei, vemos surgir o delírio que o descola e o isola desta realidade que ele tanto rechaça por se considerar diferente e desencaixado.

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O eu cartesiano, que nasceu isolado, que nasceu pela dádiva do pensar, agora inflacionado pelo imaginário, chilica contra o mundo e ignora sua verdadeira origem: o dito do Grande Outro.

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Inflado, dono de si, detentor da verdade última, a loucura se instala. 

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A solução? O sujeito. A falha, o intervalo. 

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O indivíduo moderno enlouquece porque leva o projeto de Descartes ao extremo: ele tenta ser a própria garantia da sua existência. 

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E a saída que a psicanálise propõe, é a experiência com a falta de garantia, a experiência com a falha da estrutura, a falha da linguagem.

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Desenlouquecer é dialetizar. Colocar em jogo de palavras as verdades congeladas que adoecem o falante com seu sentido rígido, quase religioso. Desenlouquecer é pôr-se a falar em associação livre, até falhar. Falhar, porque quem fala falha e é na falha que a coerência estremece e o louco pode então se resgatar de seu transe egoico e solitário rumo a refenda do sujeito que o catapulta ao desejo, que é sempre do Outro, Outro que ele tanto tenta negar.

Do cogito ao Romantismo: A invenção da loucura moderna

Patrícia Mezzomo

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Desde o corte epistemológico operado pelo cogito cartesiano, somos testemunhas do “encaixotamento” do falante moderno. Cada vez mais isolado do laço social, chafurdando em sintomas e orgulhoso de sua autossuficiência, o sujeito dos nossos tempos se descola e recusa-se a participar do mundo que o determina.

 

A crise é coletiva. Mas o homem moderno prefere acreditar que isso que o assola não vem do Outro. O equívoco de se crer a "causa de si mesmo" oblitera a sua capacidade dialética e tudo se congela num ideal de perfeição e isolamento adoecedores.

 

O falante de nosso tempo não deseja. Não deseja porque não falta. E sem falta, não há sujeito. Há apenas um ego envaidecido e enlouquecido em sua bolha algorítmica da auto existência. 

 

O engano é avassalador e a saída é o laço. Laço este que o falante recusa, pois já não pode suportar o diferente. Perdemos a capacidade dialética ao “esconder” o sujeito da falta em nome de um ideal egoico e narcísico, sucumbindo, no fim das contas, à escritura de nossas próprias lápides.

 

Basta um pouco de história e de escuta clínica para que o engano se revele e o falante possa atestar que o seu sofrimento parte de uma outra cena, de um outro lugar, de um Grande Outro que o determina e o causa. Mas o ego é soberano e arrogante. Acredita soberbamente ser o seu próprio mestre e segue impenetrável às falhas e à palavra.

 

Descartes funda o cogito fazendo nascer o sujeito moderno, que se declara causa do próprio pensamento. Foi dada a largada rumo à estase de um fantoche sem desejos. A trajetória, no entanto, é longa. O moderno nasce do seu pensar e se alicerça com toda força nesse domínio soberano sobre o mundo. A razão cartesiana vira a regra, o universo é reduzido a um grande relógio mecânico, e a Revolução Industrial transforma o homem em uma engrenagem calculável.

 

Mas a razão não basta para dar conta das dores, dos amores e do mundo subjetivo. Reduzir o mundo à tridimensionalidade avilta a alma humana e o retorno do recalcado não demora a se apresentar. 

 

Se o mundo moderno surge de um desejo de racionalidade que culmina na consolidação do iluminismo, o Romantismo surge como uma grande rebelião de tudo aquilo que ficou marginalizado: a intuição, a emoção, o sonho e o mistério. A própria transcendência é exigida como uma espécie de reparação ao que fora perdido no mundo cartesiano.

 

Surge o herói romântico. Imbuído da missão de libertar o homem das garras da racionalidade científica, assume o lugar de guerreiro contra o aprisionamento lógico e institui um efeito colateral que só se intensifica ao longo dos séculos: o Romantismo eleva o isolamento cartesiano a máxima potência e se torna a expressão do individualismo moderno. Funda-se a batalha solitária do homem contra o mundo que perdura até os dias de hoje, em suas novas roupagens.

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É em Hegel que Lacan obtém a fórmula clínica deste novo herói: o louco. O Romântico enlouqueceu porque cortou os laços com o Grande Outro — ou, pelo menos, é nisso que ele tenta acreditar. Surge a Bela Alma que tenta impor ao mundo a sua Lei do Coração na tentativa de purificar e corrigir a tudo e a todos. Seu lema é claro: “O mundo é um teatro de hipocrisias. A realidade está corrompida. Empunharei a espada da minha verdade interior até que o mundo se dobre ao meu ideal, ainda que eu tenha de lutar sozinho contra todos”.

 

O ápice do heroísmo culminando em paranóia. O sujeito romântico acredita que o seu interior é puro, belo e divino, enquanto o mundo é corrupto e limitante. O herói romântico sofre tragicamente e se isola porque o mundo é cruel demais para a sua pureza. Alcestes, Fausto, Dom Quixote, e tantos outros heróis alienam-se em rebeliões delirantes, preferindo o exílio trágico a ter que ceder aos limites do mundo. Não à toa, Eidelsztein nos aponta a misantropia como o efeito imediato e inegável dessa jornada moderna. O romântico é o protótipo do louco moderno que acredita que o seu ego é maior que o mundo.

 

Chegamos ao século XX e as verdades se bifurcam. Enquanto a ciência dura caminha rumo a materialidade do aristotelismo e do biologicismo absoluto, pensadores como Freud, Lacan, Heidegger, Saussure e Lévi-Strauss apoiam-se na linguística, na matemática, na física e na psicanálise trazendo a má nova que fere de morte o narcisismo: o ego não é o senhor de sua própria casa.

 

O giro linguístico e o estruturalismo anunciam: somos efeitos da linguagem. E a linguagem não é nossa, ela é do Grande Outro. Ninguém é causa de si mesmo e até mesmo a loucura inaugurada com o cogito, é efeito de um discurso histórico que nos atravessa e nos compõe. Somos um simples intervalo entre palavras e frases. Não há indivíduo, nascemos e morremos divididos pelo corte do significante que mata a coisa. 

 

A ferida narcísica aberta por Freud toma proporções inimagináveis no falante do século XXI. Obviamente isso não foi bem aceito e talvez estejamos testemunhando o que poderia ser chamado de Romantismo 2.0. 

 

O nosso século propõe novas rebeliões, ainda mais ferozes, contra a falta. Desde uma espiritualidade higienizada que afasta as "pessoas de baixa vibração", chegando ao capitalismo tardio que transforma a própria loucura em produto de consumo, nossas timelines são inundadas por imperativos que anulam o Outro: “seja você mesmo”, “siga seu coração”, “empodere-se”.

 

O sofrimento contemporâneo é efeito direto desse herói isolado e autônomo, sem laço com o mundo simbólico, tentando dar conta do impossível e afundando em sintomas de ansiedade, burnout e depressão. Sem o Grande Outro para ancorar e marcar a falta, o sujeito desliza sem ponto de basta, padecendo de um excesso mortífero de si mesmo.

 

A saída?

O laço, o limite, o Outro barrado. Não há saída em si mesmo. 

Se a nossa época promete a falsa liberdade de um verbo reflexivo — a ilusão de que podemos nos curar, nos bastar e nos amar sem depender de ninguém —, a clínica psicanalítica atua na contramão dessa arrogância, objetivando não um herói liberto do mundo, mas um sujeito capaz de suportar o tropeço e o atrito com o diferente. Só assim é possível ao falante escapar da própria lápide e voltar a desejar.​

A Invenção do Neurótico: Do Corpo Biológico à Existência Simbólica

Patrícia Mezzomo

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A clínica nos ensina que nascer não é o suficiente. O ato biológico do parto está longe de garantir um sujeito, e o corpo gerado pela mãe não assegura a vida. Pelo menos não a existência simbólica tal como concebida pela psicanálise.

 

A existência simbólica está, paradoxal e intrinsecamente, atrelada à morte. Como diria Lacan, "o significante mata a coisa". O animal instintual morre para que o sujeito possa ser criado a partir do nada, ex nihilo, passando a existir no mundo da linguagem.

 

É a linguagem que mata e faz nascer, através de uma dupla operação que catapulta o bebê ao universo dos significantes. Trata-se de uma ação criacionista que muito nos faz lembrar o mito de origem no qual o mundo se inicia pelo verbo. E a semelhança não é coincidência: quem cria esse sujeito não é Deus, mas o significante do Nome-do-Pai.

 

O Nome-do-Pai faz o corte que instaura a Lei, a ordem simbólica e o desejo. Esse ato de criação, que mortifica a coisa e inaugura a ordem do mundo neurótico, é operado pelo discurso materno. É a mãe, encarnando o Grande Outro, quem profere a falta.

 

A dificuldade do senso comum em apreender a proposta lacaniana talvez resida exatamente na recusa em conceber uma existência ancorada na linguagem, e não na carne. Contudo, quando a lógica nos permite abrir os antolhos da biologia, encontramos a verdadeira narrativa de fundação do neurótico.

 

Mas, se o Nome-do-Pai é o operador que instaura a morte simbólica, o Falo é o seu parceiro indissociável, que tem como função, instaurar e metonimizar o desejo,  impulsionando a vida. Ele é o véu que recobre a hiância deixada pela operação do Nome-do-Pai. Enquanto o corte instaura e demarca a falta (legalizando-a), o Falo surge como o norte, a bússola que sinaliza que essa rachadura pode ser recoberta. Como promessa de sutura, é ele quem orienta o desejo humano rumo àquilo que falta.

 

É assim que testemunhamos a entrada do infans na linguagem. O enodamento do Nome-do-Pai com o Falo se apresenta na vida da criança estruturalmente como um mistério. E será justamente esse mistério angustiante que movimentará toda a mitologia (o fantasma) que o futuro neurótico precisará inventar para dar conta do seu lugar no mundo.

 

Marcado pelo corte e pelo tampão fálico orientador do desejo, a falta no sujeito está instaurada. Definitivamente ele já não pode ser o objeto que completaria a mãe e o falo, significante do mistério por excelência se apresenta, não para suturar a falta, mas sim para interrogar o falante a respeito do desejo - que é sempre do Outro: Che vuoi?" (Que queres?).

 

A pergunta que ricocheteia no desejo materno retorna ao sujeito interrogando-o sobre a sua própria existência e o seu sexo: "O que sou eu aí? Homem ou mulher? Vivo ou morto?". Eidelsztein nos aponta que o mistério se dá justamente pela falta de significantes que possam representar a morte e o sexo e justamente por isso, não temos aqui um enigma a ser decifrado, mas um mistério estrutural e estruturante. 

 

E assim nasce o neurótico: com uma pergunta a respeito do desejo, que o aterroriza e o angustia. Diante da angústia, a saída é fantasmática. O neurótico inventa um roteiro próprio: o fantasma ($⋄a), que nada mais é, que sua gramática particular para responder e suportar o mistério. Uma narrativa que dá sentido à sua existência, que orienta seu desejo, e que ele acredita ter partido do Outro. 

 

Poderíamos pensar então, a partir desta grande jornada da criação, que a invenção do neurótico se dá por uma dupla invenção a partir do nada?

 

Uma primeira criação operada pela instauração da ordem simbólica marcada pelo nome-do-pai e uma segunda criação, agora fantasmática, que cria sua própria interpretação do desejo materno que em verdade está e sempre esteve para sempre perdido?

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