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Linguisteria 2

Antes da direção do tratamento, a questão do poder

Aline Dornelles AE/EPE

Iniciar a leitura de A direção do tratamento e os princípios de seu poder exige um pequeno cuidado. O título do texto nos induz a esperar um tratado sobre técnica analítica, uma espécie de manual sobre como conduzir uma análise. No entanto, logo nas primeiras páginas, Lacan nos adverte que seu problema é outro. Seu interesse não está em ensinar ao analista o que fazer, mas em interrogar o lugar de onde ele faz aquilo que faz. Antes de qualquer técnica, antes mesmo de qualquer teoria sobre a interpretação ou a transferência, há uma questão ética: o que autoriza um analista a ocupar esse lugar diante do sofrimento de outro sujeito?


Essa pergunta não surge por acaso. O texto é publicado em 1958, num momento em que a psicanálise já havia conquistado reconhecimento institucional e prestígio científico. Freud estava morto há quase vinte anos e a psicanálise passava por um processo de consolidação, especialmente sob a influência da Psicologia do Ego norte-americana, que privilegiava a adaptação do indivíduo à realidade e o fortalecimento das funções do eu. Para Lacan, entretanto, esse movimento representava um afastamento da descoberta freudiana. A psicanálise corria o risco de abandonar a subversão do inconsciente para se transformar em uma técnica de normalização do sujeito.


Talvez seja por isso que Lacan inicie o texto com uma afirmação que, ainda hoje, causa certo desconforto. Ele escreve que pretende mostrar como a impotência em sustentar autenticamente uma práxis reduz-se, como tantas vezes aconteceu na história dos homens, ao exercício de um poder. Essa frase merece ser tomada com toda a sua radicalidade. Lacan não está acusando a psicanálise de ser uma prática autoritária. Ao contrário, reconhece seu potencial revolucionário. O que ele denuncia é o risco permanente de que uma prática, quando perde de vista sua razão de ser, passe a sustentar-se não pela força de seus princípios, mas pela autoridade de quem a exerce.


É interessante observar que, desde o início, Lacan desloca nosso olhar do paciente para o analista. A tradição psicológica frequentemente se ocupa em perguntar o que acontece com o sujeito que procura análise. Lacan parece perguntar outra coisa: o que acontece com aquele que aceita ocupar o lugar de analista? Não é por acaso que uma das primeiras afirmações do texto seja a de que o analista certamente dirige o tratamento, mas não deve, de modo algum, dirigir o paciente. A diferença é decisiva. A direção do tratamento não consiste em orientar escolhas, oferecer modelos de felicidade ou conduzir a vida do analisando. A direção de consciência, própria das tradições morais e religiosas, encontra-se aqui radicalmente excluída.


Ao longo dessas páginas, Lacan insiste que a análise não é um espaço onde o analista exerce sua personalidade, sua experiência de vida ou sua pretensa sabedoria. Pelo contrário, ele afirma que o analista também precisa pagar um preço para ocupar sua função. Paga com suas palavras, que precisam ser cuidadosamente medidas. Paga com sua própria pessoa, que se torna suporte dos fenômenos transferenciais. E paga, sobretudo, com aquilo que há de mais íntimo em seu próprio juízo, na medida em que sua ação toca aquilo que Freud chamou de o cerne do ser. Não há privilégio nessa posição; há responsabilidade.


Talvez um dos aspectos mais surpreendentes dessas páginas seja a crítica que Lacan faz à ideia de que a análise dependa das qualidades pessoais do analista. Há uma ironia fina quando ele combate a crença de que alguém cure simplesmente porque é bom, sensível ou bem-intencionado. A boa vontade não basta para sustentar uma prática analítica. Mais do que isso, a convicção de saber o que é melhor para o outro pode tornar-se uma das formas mais sutis de exercício do poder. A ética da psicanálise exige justamente o contrário: que o analista renuncie à posição de mestre e suporte o não saber como condição de seu ato.


Talvez seja essa a razão pela qual esse texto, escrito há quase setenta anos, continue tão atual. Vivemos em uma época em que há uma infinidade de discursos oferecendo direção para a vida: especialistas, influenciadores, técnicas de desenvolvimento pessoal e diferentes modalidades terapêuticas prometem ensinar o caminho da felicidade, da eficiência e do bem-estar. Nesse cenário, a leitura de Lacan nos obriga a recolocar uma pergunta que talvez seja a mais importante de todas: o que distingue a psicanálise de qualquer prática que se proponha a administrar o sofrimento humano?


Creio que estas primeiras páginas já nos oferecem uma resposta. A singularidade da psicanálise não está em um método especial, nem em uma técnica privilegiada de interpretação. Ela está na ética de uma posição que se recusa a ocupar o lugar do mestre do desejo do outro. Talvez seja justamente por isso que Lacan escolha começar um texto sobre a direção do tratamento falando dos limites do poder do analista. Antes de nos ensinar como conduzir uma análise, ele parece querer nos lembrar que a descoberta freudiana só permanece viva enquanto resistir à tentação, tão humana quanto recorrente, de transformar um saber em instrumento de domínio.


E talvez esta seja a melhor forma de iniciarmos nosso percurso de leitura. Não tomando este texto como um manual técnico, mas como uma advertência. Uma advertência de que a psicanálise pode perder sua força não quando encontra seus adversários externos, mas quando esquece que sua ética consiste, precisamente, em não dirigir a vida do sujeito, ainda que lhe caiba dirigir o tratamento. Há algo de profundamente freudiano nessa aposta e, ao mesmo tempo, algo que anuncia todo o ensino de Lacan: o analista não está autorizado a dizer ao sujeito quem ele deve ser, mas apenas a sustentar as condições para que ele possa encontrar, na trama de sua própria palavra, a verdade singular de seu desejo.

A dívida simbólica e A formação dos futuros analistas

Josiane Tibursky

Linguisteria 2 — A coisa freudiana, in Escritos

Em A dívida simbólica, Lacan segue apontando para as consequências da entrada na linguagem, esse fenômeno de duplo efeito que, no mesmo ato, nos dá e tira, nos constitui humanos e forma uma instância inalcançável, um resto jamais totalizável. Aponta para o sujeito do inconsciente e para a marca do nome-do-pai, indicando que o trauma “verdadeiro” é primevo, anterior aos traumas moldados pelo imaginário e/ou vividos por conta da incidência do real, uma vez que é engendrado pelo registro simbólico, ou seja, está relacionado com a falta estrutural, incontornável justamente porque estrutural. 

Antes mesmo de nascer, já somos falados, já temos um lugar (ou não, situação que vai gerar outro tipo de consequências, sabemos), ou seja, já nascemos inseridos numa ordem simbólica que herdamos, essa é a nossa dívida. Ninguém é causa de si mesmo, porque antes de “eu” falar, já existe uma linguagem que me fala e me determina parcialmente. Chegamos ao mundo já com nome, filiação, histórias, expectativas e interdições... A dívida é justamente o fato de que o sujeito só pode existir como sujeito porque entra nesse campo previamente estruturado.

Lacan está recolocando a descoberta freudiana no campo da linguagem e da verdade do sujeito. A dívida simbólica, consequência da entrada na linguagem, tem relação também, portanto, com a castração simbólica e com a noção de verdade. O sujeito fala a partir de significantes herdados e é atravessado por uma história que não controla inteiramente. A análise permitiria, justamente, reconhecer como cada falasser responde a essa dívida — isto é, como se posiciona diante do desejo (que é sempre do Outro), da lei e da própria história simbólica. 

A noção de dívida simbólica que Lacan apresenta vai na direção oposta de um eu autônomo, causa de si. O sujeito não é um indivíduo fechado em si; ele é constituído na relação com o Outro (o campo da linguagem e dos significantes). 

Em A formação dos futuros analistas, Lacan enuncia que essa dívida, por ser engendrada pela própria estrutura da linguagem, pode ser resgatada justamente pela fala. Para tanto, ele afirma que a formação do analista passa não somente pelas disciplinas já indicadas por Freud, mas também pela linguística, história e matemática, para que seja possível sustentar a descoberta freudiana. 

A presença da linguística é especialmente importante porque Lacan está formulando a ideia de que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Portanto, o analista precisa entender sobre metáfora, metonímia, deslocamentos de sentido, funcionamento dos significantes e ambiguidades da fala. Sem esse entendimento, ele corre o risco de entrar na história que o analisante conta e perder aquilo que deve ser buscado para poder despontar e que, sabemos, mora entre um significante e outro. Essa é a ética da psicanálise que deve ser sustentada: o confronto com a experiência do inconsciente. Dito de outra forma: o analista não deve escutar apenas conteúdos manifestos ou comportamentos observáveis, ele deve estar atento para os efeitos do significante na fala do sujeito.

Lacan implica a matemática e a lógica na formação do analista porque ele busca um rigor estrutural para a psicanálise. Ele quer afastá-la tanto de uma prática baseada no “feeling” clínico quanto de uma psicologia adaptativa baseada no ego. Para isso, vai dar à psicanálise o estatuto de ciência conjectural, que, diferentemente da ciência positivista, não busca verdades finais, mas sim o progresso científico a partir da revisão contínua, ou, em outros termos, ciência da intersubjetividade, que, ao contrário da que está em voga, não exclui o sujeito. 

E prossegue dizendo que a formação do analista precisa de um ensino que seja verdadeiro, ou seja, que “não pare de se submeter ao que se chama de novação”, sendo novação um instituto do direito civil que extingue uma obrigação existente por meio da criação de uma nova, substituindo a anterior; funciona como forma de pagamento, pois a dívida original é quitada ao se contrair uma nova. 

13/05/2026

A dívida simbólica

Monique Lopes Fernandes

GRUPO LINGUISTERIA 2 EPE - SUJEITO/ SIGNIFICANTE
TEXTO ESCRITOS LACAN – A COISA FREUDIANA

Lacan trabalha com a ideia de que o ser humano é constituído pela linguagem, pelas promessas, pelos pactos, pelos desejos e pelas palavras recebidas do outro. Quando há uma negativa, ou seja, quando algo é negado, quebrado ou recalcado, retorna como forma de sintoma.


Lacan faz vários questionamentos, até mesmo sobre o papel do analista. Uma vez que não devemos afastar a verdade do sujeito, por mais dolorosa que seja essa verdade.


O que percebo é que esta verdade está levando a psicanálise a degradação, uma vez que os próprios analistas a temem e se afastam dela. Daí estamos nos deparando cada vez mais com técnicas duvidosas, como desenhos, cores, jogos, mil e uma maneiras que coloquem a fala em segundo plano. Estamos com medo de escutar a demanda do analisando, daí há um afastamento do sujeito. Questiono-me sobre o porquê de os analistas tanto temerem? Esse movimento que a psicanálise segue, Lacan vê como uma traição à descoberta freudiana.


Freud já vinha colocando que os sintomas não surgem do nada, eles têm relação com a história simbólica do sujeito. Daí vem esse temor que Lacan expressa ao longo do texto sobre caminhos que a psicanálise está seguindo.


Lacan defende que o sujeito humano é marcado por promessas rompidas, palavras não cumpridas, mentiras, traições, falhas no reconhecimento. Curiosamente quando Lacan apresenta essas faltas lembra a história de Confúcio, um menino que perdeu o pai muito jovem, sofreu um abandono, passou vários infortúnios. Ele estava destinado a ser um jovem de uma classe alta, mas perdeu tudo. Será que ele seria o que é, o que representa para toda uma nação, (ou melhor para o mundo) se não tivesse um abandono, uma promessa quebrada, um amor negado, uma filiação mal reconhecida, um segredo, um desejo interditado? Será que o pequeno Kong Fuzi se tornaria Confúcio? Afinal de contas ele veio de uma China devastada, ferida, a dinastia Zhou estava enfraquecida.

Com isso podemos perceber que toda falha produz efeitos simbólicos duradouros. Questiono-me por que tememos tanto essa falha, essas hiâncias , esse furo.


Vamos voltar ao texto. Lacan continua nos dizendo que o humano vive dentro de uma rede de linguagem. Assim podemos perceber que, quando uma palavra perde valor, surge um desequilíbrio simbólico.


Então podemos dizer que diante de promessas vazias, discursos sem compromisso, temos como exemplo a frase de toda mãe em relação a uma vacina, quando ela diz: - não vai doer. E sabemos que doí. Enfim, uma palavra furada, uma afirmação não verídica em que acreditamos fielmente, pois vem do Outro.


Fazendo assim com que o sujeito fique preso numa espécie de dívida, algo que foi simbolizado corretamente, algo em aberto, que não recebeu um lugar de fala e isso retorna como sintoma, angústia, repetição, sofrimento. Como usei Confúcio como reflexão, talvez ele tivesse o sintoma de querer expandir seus pensamentos, de colocar a educação como instrumento de transformação moral e social.


Confúcio traz uma frase que diz o seguinte: “Estudar sem pensar é inútil, mas refletir sem estudar é perigoso.”


De acordo com estudiosos de sua filosofia, Confúcio, na frase acima, quis dizer que o estudo deve ser base essencial, mas sempre ligado à reflexão pessoal, à experiência concreta, ao julgamento moral.


Então me pergunto se hiâncias de vida tiveram um retorno em seus sintomas, transformando -no em quem ele foi, em quem ele representa para o mundo. Ele não foi só o maior professor da China, mas também o cerne de toda uma visão pedagógica, filosófica para Oriente e até mesmo para o mundo.


Mas vamos voltar a Lacan. Ele nos mostra que, na verdade, até mesmo antes de nascer, o sujeito já entra numa rede simbólica. Exemplo: Carregamos conosco uma expectativa familiar, desejos dos pais, nomes, histórias, segredos, conflitos, fantasias. Já nascemos inseridos em estruturas de linguagem. E não devemos esquecer que a criança carrega todas as frustrações, falsos desejos, palavras envenenadas, enganos afetivos.


A fala dos pais marca profundamente o sujeito. Podemos aqui trazer mais um pensamento confucionista: ele remete ao respeito e honra aos pais como um dos seus principais princípios. A piedade filial (xiao) que representa a devoção aos pais e ancestrais. Esta virtude não se limita a um dever familiar, mas representa o próprio fundamento da moral: quem não sabe respeitar quem lhe deu a vida dificilmente poderá agir com justiça na sociedade. Sugiro aqui uma reflexão aos leitores.

Voltando ao texto, podemos dizer que toda essa expectativa, humilhação, amor, ódio em uma família, faz parte da sua constituição psíquica.


O supereu para Lacan, diferentemente de Freud, não é simplesmente consciência moral, e sim uma voz cruel, exigente, persecutória, formada pelos imperativos simbólicos internalizados.


Quando a cadeia simbólica falha o supereu pode se apresentar de modo feroz, com isso o sujeito fica esmagado por culpa, exigência e sofrimento.


Lacan aqui nos traz uma expressão medieval muito interessante, “Adequatio rei et intellectus”, que significa “adequação entre a coisa e o intelecto”. Isto significa que a verdade tem lugar quando o pensamento corresponde à coisa. Aí ele faz um jogo de palavras bem interessante: Rei/reus. A palavra “rei” pode ser conectada com res (coisa), mas “reus”, se errarmos e colocarmos um acento, se transforma em réu. Na linguagem jurídica seria o acusado, alguém com dívida, alguém que fez algo que não deveria, tendo assim uma função metafórica: aquele que está em dívida por alguma coisa. Com isso podemos dizer que há uma posição do sujeito na fala. E que esse sujeito da fala sempre está em dívida com a própria entrada simbólica, uma vez que entramos com falhas.


A formação dos futuros analistas


Lacan muda o seu alvo e começa a criticar a formação dos psicanalistas de sua época. Me pergunto: imagine se ele estivesse vivo e vivenciasse os de hoje. Qual seria a sua reação?


Lacan traz uma questão muito importante: o inconsciente funciona como linguagem, o ideal seria que a formação analítica passasse pela linguagem, uma vez que os mecanismos descobertos por Freud mostravam estruturas linguísticas. Lacan mostra que a fala cria uma dívida simbólica, mas também pode trabalhá-la, da mesma forma que o sofrimento surge através da linguagem e também pode ser transformado nela. Sendo assim, podemos dizer que a análise é um trabalho simbólico sobre fala.


Lacan aponta o empobrecimento técnico da psicanálise, pois, para ele, o analista precisa conhecer várias áreas do saber como história, linguística, literatura, arte, cultura, matemática e memórias coletivas. O inconsciente fala através disso tudo. E aqui Lacan lembra que Freud era um grande estudioso e leitor profundo de diversos temas, como tragédia grega.


Lacan crítica a formação por ter virado algo técnico, que perdeu sua densidade cultural, empobrecendo assim a escuta. E assim Lacan vai endurecendo as suas críticas, alegando que hoje os analistas são rasos e que a crise da psicanálise vem daí, de má formação. Diante disso Lacan propõe uma formação extremamente rigorosa.


Lacan propõem um retorno a Freud, acreditando que a psicanálise havia se desviado e que, sim, precisava recuperar o núcleo freudiano (inconsciente, linguagem, desejo, verdade).


Lacan vai mais além; traz uma forte crítica à tentativa de transformar o sujeito em objeto científico.


Para Lacan o sujeito não pode ser reduzido ao comportamento, nem à estatística, muito menos à adaptação social. Pois o sujeito é dividido pela linguagem. Não se contendo ele também crítica a transmissão da psicanálise, pois teme que a psicanálise se transforme em uma doutrina rígida. Uma fé cega.


Aí ele volta a falar sobre a transferência, uma vez que só há análise se existir uma conexão. Por isso, o analista precisa vigiar a sua posição.


Lacan vai seguindo em suas críticas e apontamentos. O interessante quando ele traz o questionamento freudiano de que havia três profissões impossíveis: educar, governar e psicanalisar.


Ambas trazem o não domínio total, sempre haverá falhas e o sujeito escapa.


Não devemos esquecer que Lacan também nos mostra que a verdade nunca parece inteira, ela surge em fragmentos, indireta, deslocada e ambígua. Ela simplesmente é próxima de desejo, morte, estranha ao raciocínio completo. Podemos dizer que a verdade nunca se entrega totalmente.


Monique Lopes Fernandes – Psicanalista AE- EPE

De saussure para Jakobson em busca do significante

Patrícia Mezzomo

Com "A Instância da Letra no Inconsciente", Lacan inaugura o uso fecundo de sua leitura de Roman Jakobson. Entre 1957 e 1961, testemunhamos a trajetória lacaniana em direção a uma linguística psicanalítica que culminará em seu conceito de significante, levando-o, a partir de 1961, à ideia de uma estrutura topológica do sujeito.

Lacan abandonava a problemática heideggeriana do desvelamento da verdade e do “deixar agir a fala” que era maciça em seu “Discurso de Roma”, renunciando a toda ontologia, para estabelecer uma teoria do significante não mais fundada apenas numa leitura de Saussure e de Lévi-Strauss, mas construída de maneira lógica a partir dos trabalhos de Jakobson sobre a metáfora e a metonímia.

Saussure havia sido a base do seu raciocínio que dividia o signo linguístico em duas partes. Significante e significado. E para interpretar a segunda tópica freudiana à luz da linguística estrutural, Lacan rompe a problemática do signo, ao inverter a posição saussuriana. Enquanto Saussure colocava o significado sobre o significante, separando os dois por uma barra dita de “significação”, Lacan inverte essa posição. Coloca o significado abaixo do significante e atribui a este último uma função primordial.

O significante possui leis próprias e é a partir delas que a gênese do significado pode ser estabelecida. A barra da significação saussuriana impede a dialética e faz o significado aderir-se ao sentido. Mas algo sempre escapa ao sentido. Inverter é dar primazia ao que origina o significado, ou seja, o significante, e tornar possível a operatória a partir de suas leis.

Veja, isso não é pouca coisa. Com a primazia do significado saussuriano, temos um sentido fechado, resistente e imutável. Elevar o significante a posição primordial é tornar possível a operatória clínica, desde que se conheça suas regras.

Aqui cito Lacan: “a estrutura do significante está em ele ser articulado. Isso quer dizer que suas unidades estão submetidas à dupla condição de se reduzirem a elementos diferenciais últimos e de os comporem segundo as leis de uma ordem fechada”.

Então temos:

O significante é articulado a uma dupla condição:

1. Elementos diferenciais.

2. Leis de uma ordem fechada.

Diferença entre si e sincronia. Assim são as leis do significante lacaniano, retiradas de saussure. A diferença segue a lógica onde cada elemento (como um fonema ou uma palavra) obtém seu valor e seu significado exclusivamente pela diferença em relação aos outros elementos do sistema e a ordem fechada é a descrição do sistema sincrônico, onde esses elementos diferenciais se organizam de acordo com leis internas e estruturais que operam em um momento específico do tempo. O linguista precisa de um recorte para poder analisar a complexidade da língua. Se ele tentasse estudar a língua em toda a sua evolução histórica (diacronia) e em todas as suas variações individuais (a fala), ele não conseguiria encontrar um sistema ou uma estrutura.

Lacan viu nesta descoberta uma pista fundamental para a psicanálise. O inconsciente, para ele, não se baseia em ideias ou sentimentos, mas em uma estrutura de sons e signos que obedecem a uma lógica própria. O significante não é um som qualquer, ele é um som que está inserido em uma estrutura.  Isso significa que ele não é uma massa amorfa de som, mas sim um conjunto de unidades que se combinam de acordo com regras precisas. O que ele faz aqui é nos dar a "dupla condição" que define essa articulação: diferença e sincronia.

Lacan então afirma: “Somente as correlações do significante com o significante fornecem o padrão de qualquer busca de significação”. Me pergunto: É nesta ordem fechada e de diferença que é possível qualquer busca de significação"? Não no significado, mas na articulação significante?

E novamente o cito para tentar uma resposta: “É na cadeia do significante que o sentido insiste, mas que nenhum dos elementos da cadeia consiste na significação, de que ele é capaz nesse mesmo momento. Impõe-se, portanto, a noção de um deslizamento incessante do significado sob o significante”.

Lacan não diz que o sentido "está" ou "existe" na cadeia. Ele diz que o sentido "insiste", ou seja, o sentido não é algo estático e contido em um significante, mas sim uma força, um movimento que opera através da cadeia de significantes. O sentido está sempre "a caminho". Mas ele também não consiste, já que nenhuma palavra sozinha, isolada da cadeia, consegue conter, fixar ou esgotar o sentido. O deslizamento é justamente essa impossibilidade de fixação, o significante se move dentro das leis da diferença e da ordem fechada mostrando que a barra que separa o significante do significado não é fixa e rígida (como em Saussure), mas móvel e fluida. O que isso implica é que a busca por um sentido definitivo é, por natureza, frustrada. O sujeito está sempre tentando alcançar um significado que está em constante deslizamento.

Seria essa a base para entendermos o porquê do sujeito ser um ser de falta, eternamente em busca de um sentido que ele nunca consegue fixar?

Mas esse deslizamento encontra seus pontos de basta, que é quando o sentido consegue se fixar, ao menos momentaneamente, encontrando um ponto de ancoragem para um sentido temporário.

E essa fixação temporária é possível pela dominância da letra. A letra, sendo a materialidade do significante, é o suporte físico que atua como o "ponto de basta". Ela é a pura presença que pode costurar o sentido.

É essa linearidade de deslizamento, retirada de Saussure e que Lacan inverte para fazer sua psicanálise, que compõem a lógica significante e que irá catapultá-lo diretamente a obra de Jakobson. Pois, como ele mesmo aponta, ela não é suficiente. E é em Jakobson, com sua teoria sobre as figuras de linguagem, metáfora e metonímia, que ele irá completar o raciocínio, incorporando agora a verticalidade na composição da lógica significante e aprimorando as regras da cadeia, que até então estavam alicerçadas nas regras da diferença e do sistema sincrônico.

Enquanto a linearidade nos apresenta o deslizamento que agora com o apoio de Jakobson recebe o nome de metonímia, vemos na metáfora a sobreposição vertical significante, como se fosse uma espécie de partitura da linguagem do inconsciente. Portanto, a "cadeia significante" na linearidade do discurso, não existe por si só. Ela está suspensa, como se estivesse "pendurada" em algo, ou seja, para que consideremos uma cadeia significante, é necessário também sua dimensão vertical. Ou seja, metonímia e metáfora, simultaneamente.

São essas, então, as duas dimensões sustentadas em palavras para dar conta do assunto principal, o sujeito. “A cadeia significante tem a função de indicar o lugar do sujeito”.

E novamente, vemos Lacan se utilizando de conceitos de outros autores para compor seu doutrinal psicanalítico. Enquanto em Saussure, o vemos inverter a barra da significação, em Jakobson, ele aponta para a característica fundamental da metáfora empregada ao campo psicanalítico.

Nas palavras do mesmo: “Digamos que a poesia moderna e o surrealismo (inesperado e ilógico) fizeram-nos dar um grande passo nisso, ao demonstrar que qualquer conjunção de dois significantes seria equivalente para constituir uma metáfora, caso não se exigisse a condição da máxima disparidade entre as imagens significadas para a produção da centelha poética, ou, em outras palavras, para que tenha lugar a criação metafórica”.

A metáfora de Lacan, não é uma metáfora qualquer, ela exige a máxima disparidade. Para a psicanálise, não basta a troca de uma palavra por outra que a metáfora propõe. É na disparidade que encontramos a assinatura lacaniana. O que nos interessa é a metáfora com a função específica, de representar o sujeito. Não se trata de uma simples substituição, mas de uma que opera através da negação.

Lembremos que a letra é o suporte material positivo que sustenta o significante que representa o sujeito para outro significante. Portanto, a metáfora que nos interessa é aquela que representa a negatividade do sujeito, que o substitui na cadeia em deslizamento.

Veja, o sujeito não pode se apresentar, mas pode sim, ser representado. Sujeito negativo, representado em positividade, através da letra em metáfora e metonímia. A palavra pode ser o que o sujeito não é. A linguagem opera em um nível de paradoxo, onde o sentido pode ser criado pelo que não está lá.

Essa é a grande sacada: o sujeito pode ser representado pelo que ele não é. O sujeito não é uma coisa, mas um lugar de falta. A metáfora aqui não preenche esse lugar, mas o representa através de sua ausência.

O tratamento é linguístico: A Ciência da Letra em Lacan

Patrícia Mezzomo

"Foi esse abismo aberto ao pensamento de que um pensamento se fizesse ouvir no abismo que provocou, desde o início, a resistência à análise. E não, como se costuma dizer, a promoção da sexualidade no homem." 

Com esse trecho, vemos Lacan mais uma vez desmontar a lógica predominante para revelar outra perspectiva da psicanálise. O mundo não se chocou com Freud por causa da sexualidade; a literatura sempre esteve repleta deste assunto. O verdadeiro escândalo, a verdadeira resistência foi contra a ideia de que existe um "pensamento" (o do inconsciente) que se faz ouvir a partir de um "abismo" (a "outra cena"), sem um "eu" consciente para pensá-lo. Isso sim é intolerável para a filosofia e para as ciências clássicas, que se baseiam no sujeito mestre de si. 

O inconsciente freudiano é "intelectual", ele tem uma sintaxe, e isso é o que o torna verdadeiramente subversivo. A verdadeira causa da resistência à psicanálise não foi a sexualidade, mas sim seu caráter "intelectual" — a ideia de um "pensamento sem pensador" que subverte a primazia da consciência.

Freud e Lacan “pecaram”. Estabelecer ciência sobre o pensamento freudiano é heresia batizada de "intelectualização" fundada a partir da expressão: "Isto não é psicologia, isto é linguística!" Mas o pecado para uns, pode significar a salvação de outros, e nesse caso, a “salvação” da psicanálise!

Mas porque o intelectual escandaliza tanto?

No seu texto "A Instância da Letra" de 1957, temos um Lacan extremamente estruturalista, e o estruturalismo tem o "sintoma" da formalização. Trata-se de um Lacan racionalista, tentando formalizar um saber para a psicanálise. E é com esse objetivo que ele apresenta sua teoria através do algoritmo do inconsciente. Lacan traz a ciência linguística para a psicanálise e, com isso, “peca” contra o saber da "pura" experiência clínica.

Ao inverter Saussure, dando primazia ao significante, ela não desbanca somente o significado que passa a posição de “coadjuvante”. O significante também desbanca toda a lógica pós-freudiana, aderida e fascinada com as significações imaginárias que mutilavam o texto associado livremente.

Para provar sua tese, Lacan retorna a Freud e demonstra que o inconsciente por ele descoberto já operava com essa lógica. O sonho é um rébus, uma escrita hieroglífica — ou seja, feita de imagens — que precisa ser decifrada, lida "ao pé da letra", e não decodificada como quem usa um dicionário de símbolos. Uma escrita que segue regras e leis. O "sintoma" estruturalista de Lacan é então posto em ação com o apoio de Saussure e Jakobson para formalizar o inconsciente.

No percurso do texto, somos apresentados à lógica da metáfora e da metonímia como a formalização freudiana de condensação e deslocamento. Em seguida, o vemos avançar, demonstrando através de fórmulas como a estrutura da linguagem opera concretamente na formação do sintoma e na estrutura do desejo.

O sintoma tem a estrutura de uma metáfora. Trata-se da substituição de um significante por outro. Um significante (S) da história do sujeito, geralmente ligado a um desejo conflitivo, é recalcado — ou seja, "some" da cadeia consciente do discurso. Um novo significante (S′) entra então na cadeia e toma o lugar daquele que fora recalcado, produzindo um novo sentido: o sentido do sintoma. Ao contrário da metonímia, que faz o sentido deslizar, a metáfora cria um sentido novo e o fixa no sintoma.

f(S′/S​)S ≅ S(+)s.

Já o desejo, para Lacan, tem a estrutura de uma metonímia. Se a metáfora era substituição vertical, a metonímia é a conexão horizontal de um significante com outro. É o movimento que faz a cadeia do discurso avançar, os "trilhos" sobre os quais o desejo corre. O sentido não se fixa, como no sintoma, mas desliza sempre em direção ao próximo significante da cadeia, nunca se completando e mantendo o motor do desejo sempre funcionando. É por isso que o desejo é, em sua essência, desejo de "outra coisa".

f(S...S′)S ≅ S(−)s

Ora, formular o desejo e o sintoma dessa maneira deixa órfão aquele que crê em significados. Escandaliza o crente, pois derruba o maior de todos os significados: a consciência de si, o senhor de sua própria casa. Formalizar o inconsciente desloca o "eu" cartesiano que acredita ser onde pensa, que se crê o mestre de si e o centro de seu universo. É com Copérnico que Lacan apresenta não um "eu", mas um sujeito ex-sistente, deslocado, num outro lugar, numa outra cena. Um sujeito entre significantes, um sujeito que é efeito da linguagem.

"...naquilo que pensa (cogitans), nunca faço senão constituir-me como objeto (cogitatum)." Lacan introduz aqui a crítica filosófica ao cogito. No momento em que "eu penso" (cogitans) sobre "mim mesmo", esse "mim mesmo" já virou um objeto de pensamento (cogitatum). O "eu" que enuncia a frase não é idêntico ao "eu" que é o conteúdo do pensamento. Já existe uma divisão, uma fratura, no sujeito que parecia tão unificado e certo de si. É aqui que a batalha é travada. Lacan precisa mostrar à sua audiência como o sujeito da certeza consciente é uma ilusão, para poder introduzir o sujeito do inconsciente.

Sujeito este que é uma posição numa estrutura. Sua localização (tópica) é linguística, e essa estrutura é definida pela primazia do significante sobre o significado (S/s), regida pelas leis da metáfora e da metonímia. Sendo um efeito da cadeia de significantes, o sujeito não fala, ele "é falado" pela linguagem. Por isso Lacan precisa subverter o "penso, logo existo" para o "penso onde não sou, logo sou onde não penso", pois o "eu" da consciência, o que pensa, é apenas um significante que ocupa temporariamente o lugar do sujeito.

Para Descartes, somos os autores no palco. Para Lacan, somos os atores lendo um roteiro que acreditamos ter escrito, sem perceber o teleprompter à nossa frente — o discurso do Outro. São os lapsos, os sonhos e os sintomas que dão o sinal de que existe essa outra cena que origina aquilo que pensamos vir de nós mesmos.

E voilà, temos o neurótico: aquele que é completamente determinado pelo roteiro, mas que tenta a todo custo manter a ilusão de que é o autor do que diz. O neurótico vive a miragem cartesiana, mas sua vida é a prova constante da fórmula lacaniana. A neurose é a consequência dessa divisão não reconhecida, o esforço exaustivo e fadado ao fracasso de fazer o "Eu" (o âncora) coincidir com o "Sujeito" (o roteiro).

Isso tudo soa bastante complexo e tem ares de "intelectualização", como bem diziam os psicanalistas da experiência clínica. Não à toa escandalizou. Culparam a sexualidade, bode expiatório do momento, para não terem que se haver com o que propunha o francês: o problema é o rigor intelectual. Não a "intelectualização", mas a falta de intelectualidade como resistência do analista. O analista não "vive" só de experiência; é preciso estudar e formalizar a clínica para obter seus efeitos. O tratamento é linguístico. A causa do sofrimento é a materialidade sonora do significante. O que determina o sujeito é o dito do Outro, a letra, o som. Para entender o sintoma, a neurose e, portanto, o sujeito, é preciso abandonar uma psicologia do sentido e adotar o que Lacan propõe: uma ciência da letra.

Portanto, a análise de Lacan sobre a letra e o significante não é uma simples “virada linguística". Ao levar a descoberta freudiana às suas últimas consequências, Lacan demonstra que a estrutura formal da linguagem não é um jogo intelectual, mas o próprio - Kern unseres Wesen - núcleo do ser freudiano a partir do qual o sujeito se constitui, se divide e sofre. A clínica analítica, portanto, não pode ser outra coisa senão uma prática que opera sobre essa materialidade.

A clínica do sujeito dividido

Patrícia Mezzomo

Se no primeiro capítulo, Lacan nos apresenta seu argumento linguístico, apresentando um sujeito efeito de metáfora e metonímia, apoiado em Saussure e Jakobson, e no segundo capítulo, ele nos mostra que esse sujeito também é dividido fazendo a certeza cartesiana, a certeza da consciência de si, cair por terra, chegamos então ao terceiro e último capítulo do texto A instância da letra, onde Lacan vai nos apresentar a clínica desse sujeito de linguagem. É onde ele vai nos apresentar a aplicação prática, daquilo que ele teorizou nos dois primeiros capítulos.

Cabe relembrar aqui, que o sujeito de 1957 ainda não havia aparecido como o espaço entre significantes de 1960. A falha de 1957 é falha que fratura o cogito pois apresenta um sujeito diferente do Eu da consciência, apresenta o pensamento que se fez ouvir no abismo. Afinal, aquele que fala na clínica, fala de onde? Sabemos que falha ao falar e nessa falha ele se apresenta como uma outra coisa que não a consciência mestre em sua própria casa.

É a partir disso que falha que o analista escuta. Essa é a ética clínica que Lacan nos apresenta. Não se trata do que o falante diz, mas sim daquilo que é dito através dele. Essa mensagem outra, vinda de um outro lugar. Essa é a divisão que interessa a escuta analítica.

Lacan está tentando resgatar a psicanálise do pantano do imaginário em que ela vinha se afogando, para restaurar o simbólico descoberto por Freud no campo da linguagem: o sonho é um rébus, ou seja, precisamos ouvir as palavras onde estamos vendo apenas imagens. 

O Eu (ego) é o registro do Imaginário, da imago, das imagens. É o outro (a) minúsculo, sede da rivalidade e também “aquele” com quem me identifico e permaneço "eu". Quando o analista se posiciona como um Eu (ego) — aquele que escuta e "compreende" o que está sendo dito — o efeito é apenas um reforço desta identificação imaginária, um reforço dessa miragem de entendimento e igualdade. Desse lugar não se faz possível a emergência do sujeito, e a divisão fica encoberta pela certeza imaginária.

É aí que a "ciência da letra" faz seu corte. Lacan aponta a direção, e essa direção é seu outro registro: o Simbólico. O analista deve se posicionar num "lugar terceiro", no lugar do Outro (A), frustrando a demanda imaginária do analisante. Ao não responder de um lugar de identificação, o analista já opera o ato, pois rompe com a certeza e o sentido, cortando o discurso previamente montado do Eu. O efeito é a quebra de um saber, de uma história, abrindo espaço para a dúvida, abrindo espaço para esse "pensamento do abismo" que se faz ouvir. O analisante se surpreende com o seu próprio dito.

E Lacan nos ensina isso com maestria com o exemplo do jovem André Guide que ao desafiar sua senhoria se surpreende pelo simples fato de ela ter ficado quieta e esperado a noite, para, depois lhe passar um sermão. A senhoria se recusa a responder do lugar do pequeno outro, ou seja, ela opera o corte na certeza imaginária de Guide e o que emerge é “um outro André Guide que desde então já não tem muita certeza…”.

E para fechar seu argumento, é mais uma vez em Freud que Lacan se apoia para nos provar que a "ciência da letra" é a única via de acesso à verdade do sujeito. Em seu texto de 1927 sobre o fetichismo, Freud relata o caso de um paciente que, para ter satisfação sexual, precisava de um certo "brilho no nariz" (Glanz auf der Nase, em alemão). 

O "analista do imaginário" poderia se prender numa busca interminável pelo sentido daquela imagem.

Mas Freud, em sua "via pura", descobre o inesperado: o paciente teve uma infância anglófona "esquecida". E é então que o sintoma revela que se trata de linguagem, e não de imagem. Glanz auf der Nase ("Brilho no nariz") era um trocadilho, uma tradução ao pé da letra de uma frase em inglês: "a glance at the nose" ("um olhar para o nariz"). Esse "olhar", por sua vez, já era uma metonímia da curiosidade ardente pela questão da castração.

E porque esse caso arremata o argumento lacaniano?

Porque ele é a prova cabal de três pontos: Primeiro, que o sintoma se baseia na pura materialidade da LETRA sonora e sua lei metonímica, e não em um "sentido oculto". Segundo, ele é a prova do "pensamento sem pensador" — o inconsciente daquele homem fez um trocadilho bilíngue, demonstrando o caráter "intelectual" que opera indiferente ao Eu (ego). E, finalmente, ele prova que a "via pura" de Freud só foi encontrada porque ele escutou a LETRA (o som Glanz), e não o sentimento ou a imagem.

Lacan seguiu essa batalha por toda a sua vida. Desde o início, sua arma foi a mesma: o inconsciente é estruturado como linguagem. Mesmo que em 1957 esse axioma ainda não tivesse sido formulado, é ele o revelador de sua causa e da causa de sua excomunhão.

A intelectualidade ofende e acossa o acomodado. A subversão do "horóscopo" para a "ciência da letra" nos obriga a abandonar nossas certezas e caminhar rumo à dúvida. Mas a dúvida angustia. E a "renegação" pós-freudiana, que tentou apagar essa descoberta, é o próprio testemunho histórico dessa reação de recuo.

Acompanhar a história de trás para frente nos ajuda a entender por que o "sujeito do cogito" ganhou essa batalha, e por que a ode à consciência de si segue firme e reinante, com exceção de alguns poucos "soldados" ainda remanescentes nesse campo de batalha.

Lacan não é difícil de se entender. O que é difícil é aceitar sua proposta, sempre subversiva e desconfortável ao nosso "sujeito da certeza".

Quem analisa hoje - comentários

Patrícia Mezzomo

Nesse trecho Lacan nos fala sobre um movimento que nos ajuda a compreendermos porque alguns leitores de Lacan fazem questão de se dizer lacanianos ou estruturalistas.
O lacanismo reage exatamente ao que?
Nesse texto Lacan nos fala claramente da perda da descoberta freudiana, que se deu a partir do limite teórico do rochedo da castração, os seus continuadores partiram para a escola dos afetos e para a clínica infantil.
Esse pendor pelo viés pedagógico e correcional é oriundo deste rochedo que faz os pós freudianos apelarem para a imagem ideal do analista. Como se ele pudesse se tornar o ideal comportamental do analisante.
O analista precisa achar que está bem da cabeça para empenhar esse projeto tão nefasto.
E esse fenômeno se dá na análise da transferência. Essas práticas acontecem até hoje - Sedes (SP).
A escola inglesa tem sucesso terapêutico mas não obtém sucesso analítico. Lacan defende o sucesso analítico. O analisante inglês dobra seu sintoma ao sinthoma do analista que ousa dizer como alguém deve viver.
O problema disso é a manutenção do sintoma e isso só acontece porque esse tipo de gente acredita que não existe nada além da castração.
Lacan propõe três movimentos para esse além
Falha simbólica, imaginária e real, essas três rachaduras na castração, nos mostram que o analisante está diante da fórmula do fantasma. A falha da estrutura tem como efeito o assombro. É o momento que o analisante descobre que nada fez, faz ou fará sentido, não há mestres e não haverá fiadores. O abismo não tem beirada. Esse é o assombro.
Para isso, Lacan propõe torções teóricas como a topologia: a linha fechada de jordan, o movimento helicoidal da demanda. Tudo isso são operações sobre a letra significante.
Quando falamos sobre a letra, estamos falando do estatuto acústico. Então, essas operações topológicas sobre a letra nos arremessam para além da castração. O efeito dessas operações complexas, que seria o efeito de uma análise, seria a capacidade de amar e trabalhar. Freud sabia o que era saúde mental, mas não sabia como chegar lá.
Capacidade de amar e trabalhar é a capacidade de perder para ganhar. Movimentos que para o neurótico são muito difíceis.
A isso chamamos travessia da fantasia, ontologias alternativas, etc.

Texto 1 - Linguisteria 2

Priscila Fernandes

A começar pelo título: a instância da letra ou a razão desde Freud, podemos entender instância como uma ocorrência particular ou função de algo em determinado contexto; letra, o traço material, suporte gráfico ou sonoro que permite a existência do significante e razão, a faculdade humana de pensar de forma organizada, crítica e fundamentada, ou seja, a instância da letra ou a razão desde Freud nos indica um lugar com uma estrutura lógica que opera uma função que permite uma escritura significante, e aqui eu coloco escritura justamente porque é a letra que permite a escrita, não à toa, o analista faz leitura.

Já de início, ele deixa claro a quem seu debate foi destinado, apesar de ter sido solicitado pelo grupo de Filosofia da Federação dos Estudantes de Letras, à aqueles a quem não se dirige, ou seja, ele fala para analistas, aqueles que deveriam saber que é da fala que sua experiência recebe seu instrumento, seu enquadre, seu material e como ele diz, até o ruído de fundo de suas incertezas.

No subtítulo intitulado: o sentido da letra, ele vai articular sobre a estrutura do significante, dizendo que é toda a estrutura da linguagem que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente.

Logo de cara ele indica a definição de letra, o suporte material que o discurso concreto toma emprestado da linguagem, ou seja, aquilo que permite a articulação significante e sua própria existência.

Lacan diz que a linguagem, com sua estrutura, preexiste à entrada de cada sujeito num momento de seu desenvolvimento mental, fazendo do sujeito servo de um discurso onde seu lugar já está inscrito em seu nascimento.

Ele aponta o fato que a linguística ocupa um lugar revolucionário do conhecimento, onde a linguagem conquistou seu status de objeto científico. Lembrando que em 1957, ano que foi proferido esse texto, Lacan já tinha lido e frequentado as aulas de Strauss, estava aderido ao movimento estruturalista, citando Saussure e Jakobson ao longo do desenvolvimento do texto.

Lacan nos aponta o algoritmo que funda a linguística de forma invertida à apresentada por Saussure, onde o significante está em primazia ao significado, pois nenhuma significação se sustenta a não ser pela remissão a uma outra significação, nos lembrando a ilusão que é o significante atender à função de representar o significado, já que por si mesmos, são sem sentido algum. Para ilustrar suas considerações a cerca do algoritmo, ele se utiliza de duas imagens, uma, em suas palavras, incorreta, com o escrito Árvore em cima da barra da significação com a imagem de uma árvore embaixo e outra com os escritos homens e mulheres acima da imagem de duas portas iguais. Porque a primeira imagem é errônea, em sua perspectiva? Porque o significante está além do significado, ele não fecha o sentido, ao contrário, desliza e desloca a significação, onde um significante é o que um significante significa para outro significante. Para isso, eles nos demonstra com um exemplo de dois irmãos que estavam em viagem de trem e ao chegarem na estação, um olha e diz: Olha, chegamos a Mulheres, enquanto a irmã responde: Imbecil, não está vendo que nós estamos em Homens?, exemplo claro do lugar que o significante ocupa em relação ao significado.

 

O algoritmo, nos diz Lacan, é apenas pura função do significante e sua estrutura está em ele ser articulado, isso quer dizer que suas unidades estão submetidas à dupla condição de se reduzirem a elementos diferenciais últimos e de os comporem segundo as leis de uma ordem fechada, sendo esses elementos os fonemas, descoberta decisiva da linguística. A letra é a estrutura essencialmente localizada do significante, sua marca.

O significante, por sua natureza, sempre se antecipa ao sentido, aponta Lacan, desdobrando como que adiante dele sua dimensão. Donde se pode dizer que é na cadeia do significante que o sentido insiste, mas que nenhum dos elementos da cadeia consiste na significação de que ele é capaz nesse mesmo momento.

O que essa estrutura da cadeia significante revela é a possibilidade que eu tenho, justamente na medida em que sua língua me é comum com outros sujeitos, isto é, em que essa língua existe, de me servir dela para expressar algo completamente diferente do que ela diz. A função propriamente significante que assim se desenha na linguagem tem um nome. Esse nome é metonímia, sendo isso a primeira vertente do campo efetivo que o significante constitui, para que nele tenha lugar o sentido. A outra vertente é a metáfora, onde a centelha criadora da metáfora brota entre dois significantes dos quais um substituiu o outro, assumindo seu lugar na cadeia significante, enquanto o significante oculto permanece presente em sua conexão metonímica com o resto da cadeia. Uma palavra por outra, eis a fórmula da metáfora. A metáfora se coloca no ponto exato em que o sentido se produz no não-senso, isto é, na passagem sobre a qual Freud descobriu que, transposta às avessas, dá lugar à palavra, a palavra que não tem outro patrocínio senão o significante da espirituosidade, e onde se vislumbra que é seu próprio destino que o homem desafia através da derrisão do significante.

Ou seja, Lacan enfatiza que, na prática, a metáfora e a metonímia estão intrinsecamente ligadas e se produzem mutuamente; toda metáfora é atravessada por uma metonímia, e toda metonímia é o fracasso de uma metáfora. São as leis que regem o significante, o sentido da letra, como o próprio subtítulo diz.

A letra mata, pois ela torna refém o sujeito da articulação significante, da rede simbólica, refém da linguagem. Mas também é pela letra que o sujeito pode se haver com a vida, com todos os seus efeitos de verdade no homem, como diz Lacan e permitiu a Freud nomear o inconsciente, através dos chistes, atos falhos, sonhos e sintomas, todos estruturados como uma linguagem.

Priscila Fernandes - Analista da Escola EPE

Texto 2 - Linguisteria 2

Priscila Fernandes

No subtítulo: a letra no inconsciente, é toda estrutura em funcionamento do significante que Lacan vai articular através da interpretação dos sonhos de Freud, obra inaugural de sua teoria do inconsciente.

Lacan diz que na Ciência dos sonhos, trata-se apenas, em todas as páginas, daquilo a que chamamos a letra do discurso, pois esse texto abre com sua obra a via régia para o inconsciente.

As imagens do sonho só devem ser retidas por seu valor de significante, isto é, uma estrutura de linguagem que possibilita a operação da leitura, leitura na qual que permite o analista decifrar, como nos diz Lacan, e não decodificar, como acreditam muitos analistas fazerem. Decifrar significa interpretar ou ler o que está obscuro ou ilegível e o analista faz isso através da dialetização da cadeia significante que se apresenta no discurso do analisante.

Lacan nos diz que podemos encontrar as duas vertentes da incidência do significante no significado na precondição geral da função do sonho, sendo elas a condensação, que é a estrutura de superposição dos significantes em que ganha campo a metáfora e o deslocamento, que é o transporte da significação que a metonímia demonstra.

Lacan coloca que Freud, na análise do sonho, não pretende dar-nos outra coisa senão as leis do inconsciente em sua extensão mais geral, mas não podemos perder de vista que a eficiência do inconsciente não se detém no despertar, pois o inconsciente não deixa fora de seu campo nenhuma de nossas ações.

Lacan introduz a função do sujeito dialetizando a fórmula “penso, logo existo”, chegando a “penso onde não sou, logo sou onde não penso”, o que cumpre dizer é que eu não sou lá onde sou joguete de meu pensamento; penso naquilo que sou lá onde não penso pensar, ou seja, o S e o s do algoritmo saussuriano não estão no mesmo plano, o sujeito é descentralizado.

A metáfora está ligada ao sintoma no sentido analítico, produz um efeito de sentido novo, condensando significados e o desejo, a metonímia, onde há o deslizamento de sentido: o significante não se fixa, mas aponta para outro, numa cadeia sem fim. E é toda essa estrutura em funcionamento que a análise do sonho desvela, a estrutura da linguagem que o significante vem fazer a função com seus efeitos de linguagem metafóricos e metonímicos, abrindo espaço para o sujeito advir onde o isso estava.

Priscila Fernandes - Analista da Escola EPE

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