Linguisteria 2
​Este grupo busca estudar como o significante constitui a estrutura do inconsciente e molda a formação do sujeito. O grupo busca explorar as relações entre linguagem, inconsciente e desejo, analisando como o sujeito é dividido e formado por meio dos signos e da cadeia significante.
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Índice de Textos
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De saussure para Jakobson em busca do significante
Patrícia Mezzomo
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Com "A Instância da Letra no Inconsciente", Lacan inaugura o uso fecundo de sua leitura de Roman Jakobson. Entre 1957 e 1961, testemunhamos a trajetória lacaniana em direção a uma linguística psicanalítica que culminará em seu conceito de significante, levando-o, a partir de 1961, à ideia de uma estrutura topológica do sujeito.
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Lacan abandonava a problemática heideggeriana do desvelamento da verdade e do “deixar agir a fala” que era maciça em seu “Discurso de Roma”, renunciando a toda ontologia, para estabelecer uma teoria do significante não mais fundada apenas numa leitura de Saussure e de Lévi-Strauss, mas construída de maneira lógica a partir dos trabalhos de Jakobson sobre a metáfora e a metonímia.
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Saussure havia sido a base do seu raciocínio que dividia o signo linguístico em duas partes. Significante e significado. E para interpretar a segunda tópica freudiana à luz da linguística estrutural, Lacan rompe a problemática do signo, ao inverter a posição saussuriana. Enquanto Saussure colocava o significado sobre o significante, separando os dois por uma barra dita de “significação”, Lacan inverte essa posição. Coloca o significado abaixo do significante e atribui a este último uma função primordial.
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O significante possui leis próprias e é a partir delas que a gênese do significado pode ser estabelecida. A barra da significação saussuriana impede a dialética e faz o significado aderir-se ao sentido. Mas algo sempre escapa ao sentido. Inverter é dar primazia ao que origina o significado, ou seja, o significante, e tornar possível a operatória a partir de suas leis.
Veja, isso não é pouca coisa. Com a primazia do significado saussuriano, temos um sentido fechado, resistente e imutável. Elevar o significante a posição primordial é tornar possível a operatória clínica, desde que se conheça suas regras.
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Aqui cito Lacan: “a estrutura do significante está em ele ser articulado. Isso quer dizer que suas unidades estão submetidas à dupla condição de se reduzirem a elementos diferenciais últimos e de os comporem segundo as leis de uma ordem fechada”.
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Então temos:
O significante é articulado a uma dupla condição:
1. Elementos diferenciais.
2. Leis de uma ordem fechada.
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Diferença entre si e sincronia. Assim são as leis do significante lacaniano, retiradas de saussure. A diferença segue a lógica onde cada elemento (como um fonema ou uma palavra) obtém seu valor e seu significado exclusivamente pela diferença em relação aos outros elementos do sistema e a ordem fechada é a descrição do sistema sincrônico, onde esses elementos diferenciais se organizam de acordo com leis internas e estruturais que operam em um momento específico do tempo. O linguista precisa de um recorte para poder analisar a complexidade da língua. Se ele tentasse estudar a língua em toda a sua evolução histórica (diacronia) e em todas as suas variações individuais (a fala), ele não conseguiria encontrar um sistema ou uma estrutura.
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Lacan viu nesta descoberta uma pista fundamental para a psicanálise. O inconsciente, para ele, não se baseia em ideias ou sentimentos, mas em uma estrutura de sons e signos que obedecem a uma lógica própria. O significante não é um som qualquer, ele é um som que está inserido em uma estrutura. Isso significa que ele não é uma massa amorfa de som, mas sim um conjunto de unidades que se combinam de acordo com regras precisas. O que ele faz aqui é nos dar a "dupla condição" que define essa articulação: diferença e sincronia.
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Lacan então afirma: “Somente as correlações do significante com o significante fornecem o padrão de qualquer busca de significação”. Me pergunto: É nesta ordem fechada e de diferença que é possível qualquer busca de significação"? Não no significado, mas na articulação significante?
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E novamente o cito para tentar uma resposta: “É na cadeia do significante que o sentido insiste, mas que nenhum dos elementos da cadeia consiste na significação, de que ele é capaz nesse mesmo momento. Impõe-se, portanto, a noção de um deslizamento incessante do significado sob o significante”.
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Lacan não diz que o sentido "está" ou "existe" na cadeia. Ele diz que o sentido "insiste", ou seja, o sentido não é algo estático e contido em um significante, mas sim uma força, um movimento que opera através da cadeia de significantes. O sentido está sempre "a caminho". Mas ele também não consiste, já que nenhuma palavra sozinha, isolada da cadeia, consegue conter, fixar ou esgotar o sentido. O deslizamento é justamente essa impossibilidade de fixação, o significante se move dentro das leis da diferença e da ordem fechada mostrando que a barra que separa o significante do significado não é fixa e rígida (como em Saussure), mas móvel e fluida. O que isso implica é que a busca por um sentido definitivo é, por natureza, frustrada. O sujeito está sempre tentando alcançar um significado que está em constante deslizamento.
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Seria essa a base para entendermos o porquê do sujeito ser um ser de falta, eternamente em busca de um sentido que ele nunca consegue fixar?
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Mas esse deslizamento encontra seus pontos de basta, que é quando o sentido consegue se fixar, ao menos momentaneamente, encontrando um ponto de ancoragem para um sentido temporário.
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E essa fixação temporária é possível pela dominância da letra. A letra, sendo a materialidade do significante, é o suporte físico que atua como o "ponto de basta". Ela é a pura presença que pode costurar o sentido.
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É essa linearidade de deslizamento, retirada de Saussure e que Lacan inverte para fazer sua psicanálise, que compõem a lógica significante e que irá catapultá-lo diretamente a obra de Jakobson. Pois, como ele mesmo aponta, ela não é suficiente. E é em Jakobson, com sua teoria sobre as figuras de linguagem, metáfora e metonímia, que ele irá completar o raciocínio, incorporando agora a verticalidade na composição da lógica significante e aprimorando as regras da cadeia, que até então estavam alicerçadas nas regras da diferença e do sistema sincrônico.
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Enquanto a linearidade nos apresenta o deslizamento que agora com o apoio de Jakobson recebe o nome de metonímia, vemos na metáfora a sobreposição vertical significante, como se fosse uma espécie de partitura da linguagem do inconsciente. Portanto, a "cadeia significante" na linearidade do discurso, não existe por si só. Ela está suspensa, como se estivesse "pendurada" em algo, ou seja, para que consideremos uma cadeia significante, é necessário também sua dimensão vertical. Ou seja, metonímia e metáfora, simultaneamente.
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São essas, então, as duas dimensões sustentadas em palavras para dar conta do assunto principal, o sujeito. “A cadeia significante tem a função de indicar o lugar do sujeito”.
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E novamente, vemos Lacan se utilizando de conceitos de outros autores para compor seu doutrinal psicanalítico. Enquanto em Saussure, o vemos inverter a barra da significação, em Jakobson, ele aponta para a característica fundamental da metáfora empregada ao campo psicanalítico.
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Nas palavras do mesmo: “Digamos que a poesia moderna e o surrealismo (inesperado e ilógico) fizeram-nos dar um grande passo nisso, ao demonstrar que qualquer conjunção de dois significantes seria equivalente para constituir uma metáfora, caso não se exigisse a condição da máxima disparidade entre as imagens significadas para a produção da centelha poética, ou, em outras palavras, para que tenha lugar a criação metafórica”.
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A metáfora de Lacan, não é uma metáfora qualquer, ela exige a máxima disparidade. Para a psicanálise, não basta a troca de uma palavra por outra que a metáfora propõe. É na disparidade que encontramos a assinatura lacaniana. O que nos interessa é a metáfora com a função específica, de representar o sujeito. Não se trata de uma simples substituição, mas de uma que opera através da negação.
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Lembremos que a letra é o suporte material positivo que sustenta o significante que representa o sujeito para outro significante. Portanto, a metáfora que nos interessa é aquela que representa a negatividade do sujeito, que o substitui na cadeia em deslizamento.
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Veja, o sujeito não pode se apresentar, mas pode sim, ser representado. Sujeito negativo, representado em positividade, através da letra em metáfora e metonímia. A palavra pode ser o que o sujeito não é. A linguagem opera em um nível de paradoxo, onde o sentido pode ser criado pelo que não está lá.
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Essa é a grande sacada: o sujeito pode ser representado pelo que ele não é. O sujeito não é uma coisa, mas um lugar de falta. A metáfora aqui não preenche esse lugar, mas o representa através de sua ausência.
O tratamento é linguístico: A Ciência da Letra em Lacan
Patrícia Mezzomo
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"Foi esse abismo aberto ao pensamento de que um pensamento se fizesse ouvir no abismo que provocou, desde o início, a resistência à análise. E não, como se costuma dizer, a promoção da sexualidade no homem."
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Com esse trecho, vemos Lacan mais uma vez desmontar a lógica predominante para revelar outra perspectiva da psicanálise. O mundo não se chocou com Freud por causa da sexualidade; a literatura sempre esteve repleta deste assunto. O verdadeiro escândalo, a verdadeira resistência foi contra a ideia de que existe um "pensamento" (o do inconsciente) que se faz ouvir a partir de um "abismo" (a "outra cena"), sem um "eu" consciente para pensá-lo. Isso sim é intolerável para a filosofia e para as ciências clássicas, que se baseiam no sujeito mestre de si.
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O inconsciente freudiano é "intelectual", ele tem uma sintaxe, e isso é o que o torna verdadeiramente subversivo. A verdadeira causa da resistência à psicanálise não foi a sexualidade, mas sim seu caráter "intelectual" — a ideia de um "pensamento sem pensador" que subverte a primazia da consciência.
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Freud e Lacan “pecaram”. Estabelecer ciência sobre o pensamento freudiano é heresia batizada de "intelectualização" fundada a partir da expressão: "Isto não é psicologia, isto é linguística!" Mas o pecado para uns, pode significar a salvação de outros, e nesse caso, a “salvação” da psicanálise!
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Mas porque o intelectual escandaliza tanto?
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No seu texto "A Instância da Letra" de 1957, temos um Lacan extremamente estruturalista, e o estruturalismo tem o "sintoma" da formalização. Trata-se de um Lacan racionalista, tentando formalizar um saber para a psicanálise. E é com esse objetivo que ele apresenta sua teoria através do algoritmo do inconsciente. Lacan traz a ciência linguística para a psicanálise e, com isso, “peca” contra o saber da "pura" experiência clínica.
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Ao inverter Saussure, dando primazia ao significante, ela não desbanca somente o significado que passa a posição de “coadjuvante”. O significante também desbanca toda a lógica pós-freudiana, aderida e fascinada com as significações imaginárias que mutilavam o texto associado livremente.
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Para provar sua tese, Lacan retorna a Freud e demonstra que o inconsciente por ele descoberto já operava com essa lógica. O sonho é um rébus, uma escrita hieroglífica — ou seja, feita de imagens — que precisa ser decifrada, lida "ao pé da letra", e não decodificada como quem usa um dicionário de símbolos. Uma escrita que segue regras e leis. O "sintoma" estruturalista de Lacan é então posto em ação com o apoio de Saussure e Jakobson para formalizar o inconsciente.
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No percurso do texto, somos apresentados à lógica da metáfora e da metonímia como a formalização freudiana de condensação e deslocamento. Em seguida, o vemos avançar, demonstrando através de fórmulas como a estrutura da linguagem opera concretamente na formação do sintoma e na estrutura do desejo.
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O sintoma tem a estrutura de uma metáfora. Trata-se da substituição de um significante por outro. Um significante (S) da história do sujeito, geralmente ligado a um desejo conflitivo, é recalcado — ou seja, "some" da cadeia consciente do discurso. Um novo significante (S′) entra então na cadeia e toma o lugar daquele que fora recalcado, produzindo um novo sentido: o sentido do sintoma. Ao contrário da metonímia, que faz o sentido deslizar, a metáfora cria um sentido novo e o fixa no sintoma.
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f(S′/S​)S ≅ S(+)s.
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Já o desejo, para Lacan, tem a estrutura de uma metonímia. Se a metáfora era substituição vertical, a metonímia é a conexão horizontal de um significante com outro. É o movimento que faz a cadeia do discurso avançar, os "trilhos" sobre os quais o desejo corre. O sentido não se fixa, como no sintoma, mas desliza sempre em direção ao próximo significante da cadeia, nunca se completando e mantendo o motor do desejo sempre funcionando. É por isso que o desejo é, em sua essência, desejo de "outra coisa".
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f(S...S′)S ≅ S(−)s
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Ora, formular o desejo e o sintoma dessa maneira deixa órfão aquele que crê em significados. Escandaliza o crente, pois derruba o maior de todos os significados: a consciência de si, o senhor de sua própria casa. Formalizar o inconsciente desloca o "eu" cartesiano que acredita ser onde pensa, que se crê o mestre de si e o centro de seu universo. É com Copérnico que Lacan apresenta não um "eu", mas um sujeito ex-sistente, deslocado, num outro lugar, numa outra cena. Um sujeito entre significantes, um sujeito que é efeito da linguagem.
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"...naquilo que pensa (cogitans), nunca faço senão constituir-me como objeto (cogitatum)." Lacan introduz aqui a crítica filosófica ao cogito. No momento em que "eu penso" (cogitans) sobre "mim mesmo", esse "mim mesmo" já virou um objeto de pensamento (cogitatum). O "eu" que enuncia a frase não é idêntico ao "eu" que é o conteúdo do pensamento. Já existe uma divisão, uma fratura, no sujeito que parecia tão unificado e certo de si. É aqui que a batalha é travada. Lacan precisa mostrar à sua audiência como o sujeito da certeza consciente é uma ilusão, para poder introduzir o sujeito do inconsciente.
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Sujeito este que é uma posição numa estrutura. Sua localização (tópica) é linguística, e essa estrutura é definida pela primazia do significante sobre o significado (S/s), regida pelas leis da metáfora e da metonímia. Sendo um efeito da cadeia de significantes, o sujeito não fala, ele "é falado" pela linguagem. Por isso Lacan precisa subverter o "penso, logo existo" para o "penso onde não sou, logo sou onde não penso", pois o "eu" da consciência, o que pensa, é apenas um significante que ocupa temporariamente o lugar do sujeito.
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Para Descartes, somos os autores no palco. Para Lacan, somos os atores lendo um roteiro que acreditamos ter escrito, sem perceber o teleprompter à nossa frente — o discurso do Outro. São os lapsos, os sonhos e os sintomas que dão o sinal de que existe essa outra cena que origina aquilo que pensamos vir de nós mesmos.
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E voilà, temos o neurótico: aquele que é completamente determinado pelo roteiro, mas que tenta a todo custo manter a ilusão de que é o autor do que diz. O neurótico vive a miragem cartesiana, mas sua vida é a prova constante da fórmula lacaniana. A neurose é a consequência dessa divisão não reconhecida, o esforço exaustivo e fadado ao fracasso de fazer o "Eu" (o âncora) coincidir com o "Sujeito" (o roteiro).
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Isso tudo soa bastante complexo e tem ares de "intelectualização", como bem diziam os psicanalistas da experiência clínica. Não à toa escandalizou. Culparam a sexualidade, bode expiatório do momento, para não terem que se haver com o que propunha o francês: o problema é o rigor intelectual. Não a "intelectualização", mas a falta de intelectualidade como resistência do analista. O analista não "vive" só de experiência; é preciso estudar e formalizar a clínica para obter seus efeitos. O tratamento é linguístico. A causa do sofrimento é a materialidade sonora do significante. O que determina o sujeito é o dito do Outro, a letra, o som. Para entender o sintoma, a neurose e, portanto, o sujeito, é preciso abandonar uma psicologia do sentido e adotar o que Lacan propõe: uma ciência da letra.
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Portanto, a análise de Lacan sobre a letra e o significante não é uma simples “virada linguística". Ao levar a descoberta freudiana às suas últimas consequências, Lacan demonstra que a estrutura formal da linguagem não é um jogo intelectual, mas o próprio - Kern unseres Wesen - núcleo do ser freudiano a partir do qual o sujeito se constitui, se divide e sofre. A clínica analítica, portanto, não pode ser outra coisa senão uma prática que opera sobre essa materialidade.
A clínica do sujeito dividido
Patrícia Mezzomo
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Se no primeiro capítulo, Lacan nos apresenta seu argumento linguístico, apresentando um sujeito efeito de metáfora e metonímia, apoiado em Saussure e Jakobson, e no segundo capítulo, ele nos mostra que esse sujeito também é dividido fazendo a certeza cartesiana, a certeza da consciência de si, cair por terra, chegamos então ao terceiro e último capítulo do texto A instância da letra, onde Lacan vai nos apresentar a clínica desse sujeito de linguagem. É onde ele vai nos apresentar a aplicação prática, daquilo que ele teorizou nos dois primeiros capítulos.
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Cabe relembrar aqui, que o sujeito de 1957 ainda não havia aparecido como o espaço entre significantes de 1960. A falha de 1957 é falha que fratura o cogito pois apresenta um sujeito diferente do Eu da consciência, apresenta o pensamento que se fez ouvir no abismo. Afinal, aquele que fala na clínica, fala de onde? Sabemos que falha ao falar e nessa falha ele se apresenta como uma outra coisa que não a consciência mestre em sua própria casa.
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É a partir disso que falha que o analista escuta. Essa é a ética clínica que Lacan nos apresenta. Não se trata do que o falante diz, mas sim daquilo que é dito através dele. Essa mensagem outra, vinda de um outro lugar. Essa é a divisão que interessa a escuta analítica.
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Lacan está tentando resgatar a psicanálise do pantano do imaginário em que ela vinha se afogando, para restaurar o simbólico descoberto por Freud no campo da linguagem: o sonho é um rébus, ou seja, precisamos ouvir as palavras onde estamos vendo apenas imagens.
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O Eu (ego) é o registro do Imaginário, da imago, das imagens. É o outro (a) minúsculo, sede da rivalidade e também “aquele” com quem me identifico e permaneço "eu". Quando o analista se posiciona como um Eu (ego) — aquele que escuta e "compreende" o que está sendo dito — o efeito é apenas um reforço desta identificação imaginária, um reforço dessa miragem de entendimento e igualdade. Desse lugar não se faz possível a emergência do sujeito, e a divisão fica encoberta pela certeza imaginária.
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É aí que a "ciência da letra" faz seu corte. Lacan aponta a direção, e essa direção é seu outro registro: o Simbólico. O analista deve se posicionar num "lugar terceiro", no lugar do Outro (A), frustrando a demanda imaginária do analisante. Ao não responder de um lugar de identificação, o analista já opera o ato, pois rompe com a certeza e o sentido, cortando o discurso previamente montado do Eu. O efeito é a quebra de um saber, de uma história, abrindo espaço para a dúvida, abrindo espaço para esse "pensamento do abismo" que se faz ouvir. O analisante se surpreende com o seu próprio dito.
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E Lacan nos ensina isso com maestria com o exemplo do jovem André Guide que ao desafiar sua senhoria se surpreende pelo simples fato de ela ter ficado quieta e esperado a noite, para, depois lhe passar um sermão. A senhoria se recusa a responder do lugar do pequeno outro, ou seja, ela opera o corte na certeza imaginária de Guide e o que emerge é “um outro André Guide que desde então já não tem muita certeza…”.
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E para fechar seu argumento, é mais uma vez em Freud que Lacan se apoia para nos provar que a "ciência da letra" é a única via de acesso à verdade do sujeito. Em seu texto de 1927 sobre o fetichismo, Freud relata o caso de um paciente que, para ter satisfação sexual, precisava de um certo "brilho no nariz" (Glanz auf der Nase, em alemão).
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O "analista do imaginário" poderia se prender numa busca interminável pelo sentido daquela imagem.
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Mas Freud, em sua "via pura", descobre o inesperado: o paciente teve uma infância anglófona "esquecida". E é então que o sintoma revela que se trata de linguagem, e não de imagem. Glanz auf der Nase ("Brilho no nariz") era um trocadilho, uma tradução ao pé da letra de uma frase em inglês: "a glance at the nose" ("um olhar para o nariz"). Esse "olhar", por sua vez, já era uma metonímia da curiosidade ardente pela questão da castração.
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E porque esse caso arremata o argumento lacaniano?
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Porque ele é a prova cabal de três pontos: Primeiro, que o sintoma se baseia na pura materialidade da LETRA sonora e sua lei metonímica, e não em um "sentido oculto". Segundo, ele é a prova do "pensamento sem pensador" — o inconsciente daquele homem fez um trocadilho bilíngue, demonstrando o caráter "intelectual" que opera indiferente ao Eu (ego). E, finalmente, ele prova que a "via pura" de Freud só foi encontrada porque ele escutou a LETRA (o som Glanz), e não o sentimento ou a imagem.
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Lacan seguiu essa batalha por toda a sua vida. Desde o início, sua arma foi a mesma: o inconsciente é estruturado como linguagem. Mesmo que em 1957 esse axioma ainda não tivesse sido formulado, é ele o revelador de sua causa e da causa de sua excomunhão.
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A intelectualidade ofende e acossa o acomodado. A subversão do "horóscopo" para a "ciência da letra" nos obriga a abandonar nossas certezas e caminhar rumo à dúvida. Mas a dúvida angustia. E a "renegação" pós-freudiana, que tentou apagar essa descoberta, é o próprio testemunho histórico dessa reação de recuo.
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Acompanhar a história de trás para frente nos ajuda a entender por que o "sujeito do cogito" ganhou essa batalha, e por que a ode à consciência de si segue firme e reinante, com exceção de alguns poucos "soldados" ainda remanescentes nesse campo de batalha.
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Lacan não é difícil de se entender. O que é difícil é aceitar sua proposta, sempre subversiva e desconfortável ao nosso "sujeito da certeza".​
Texto 1 - Linguisteria 2
Priscila Fernandes
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A começar pelo título: a instância da letra ou a razão desde Freud, podemos entender instância como uma ocorrência particular ou função de algo em determinado contexto; letra, o traço material, suporte gráfico ou sonoro que permite a existência do significante e razão, a faculdade humana de pensar de forma organizada, crítica e fundamentada, ou seja, a instância da letra ou a razão desde Freud nos indica um lugar com uma estrutura lógica que opera uma função que permite uma escritura significante, e aqui eu coloco escritura justamente porque é a letra que permite a escrita, não à toa, o analista faz leitura.
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Já de início, ele deixa claro a quem seu debate foi destinado, apesar de ter sido solicitado pelo grupo de Filosofia da Federação dos Estudantes de Letras, à aqueles a quem não se dirige, ou seja, ele fala para analistas, aqueles que deveriam saber que é da fala que sua experiência recebe seu instrumento, seu enquadre, seu material e como ele diz, até o ruído de fundo de suas incertezas.
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No subtítulo intitulado: o sentido da letra, ele vai articular sobre a estrutura do significante, dizendo que é toda a estrutura da linguagem que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente.
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Logo de cara ele indica a definição de letra, o suporte material que o discurso concreto toma emprestado da linguagem, ou seja, aquilo que permite a articulação significante e sua própria existência.
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Lacan diz que a linguagem, com sua estrutura, preexiste à entrada de cada sujeito num momento de seu desenvolvimento mental, fazendo do sujeito servo de um discurso onde seu lugar já está inscrito em seu nascimento.
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Ele aponta o fato que a linguística ocupa um lugar revolucionário do conhecimento, onde a linguagem conquistou seu status de objeto científico. Lembrando que em 1957, ano que foi proferido esse texto, Lacan já tinha lido e frequentado as aulas de Strauss, estava aderido ao movimento estruturalista, citando Saussure e Jakobson ao longo do desenvolvimento do texto.
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Lacan nos aponta o algoritmo que funda a linguística de forma invertida à apresentada por Saussure, onde o significante está em primazia ao significado, pois nenhuma significação se sustenta a não ser pela remissão a uma outra significação, nos lembrando a ilusão que é o significante atender à função de representar o significado, já que por si mesmos, são sem sentido algum. Para ilustrar suas considerações a cerca do algoritmo, ele se utiliza de duas imagens, uma, em suas palavras, incorreta, com o escrito Árvore em cima da barra da significação com a imagem de uma árvore embaixo e outra com os escritos homens e mulheres acima da imagem de duas portas iguais. Porque a primeira imagem é errônea, em sua perspectiva? Porque o significante está além do significado, ele não fecha o sentido, ao contrário, desliza e desloca a significação, onde um significante é o que um significante significa para outro significante. Para isso, eles nos demonstra com um exemplo de dois irmãos que estavam em viagem de trem e ao chegarem na estação, um olha e diz: Olha, chegamos a Mulheres, enquanto a irmã responde: Imbecil, não está vendo que nós estamos em Homens?, exemplo claro do lugar que o significante ocupa em relação ao significado.
O algoritmo, nos diz Lacan, é apenas pura função do significante e sua estrutura está em ele ser articulado, isso quer dizer que suas unidades estão submetidas à dupla condição de se reduzirem a elementos diferenciais últimos e de os comporem segundo as leis de uma ordem fechada, sendo esses elementos os fonemas, descoberta decisiva da linguística. A letra é a estrutura essencialmente localizada do significante, sua marca.
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O significante, por sua natureza, sempre se antecipa ao sentido, aponta Lacan, desdobrando como que adiante dele sua dimensão. Donde se pode dizer que é na cadeia do significante que o sentido insiste, mas que nenhum dos elementos da cadeia consiste na significação de que ele é capaz nesse mesmo momento.
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O que essa estrutura da cadeia significante revela é a possibilidade que eu tenho, justamente na medida em que sua língua me é comum com outros sujeitos, isto é, em que essa língua existe, de me servir dela para expressar algo completamente diferente do que ela diz. A função propriamente significante que assim se desenha na linguagem tem um nome. Esse nome é metonímia, sendo isso a primeira vertente do campo efetivo que o significante constitui, para que nele tenha lugar o sentido. A outra vertente é a metáfora, onde a centelha criadora da metáfora brota entre dois significantes dos quais um substituiu o outro, assumindo seu lugar na cadeia significante, enquanto o significante oculto permanece presente em sua conexão metonímica com o resto da cadeia. Uma palavra por outra, eis a fórmula da metáfora. A metáfora se coloca no ponto exato em que o sentido se produz no não-senso, isto é, na passagem sobre a qual Freud descobriu que, transposta às avessas, dá lugar à palavra, a palavra que não tem outro patrocínio senão o significante da espirituosidade, e onde se vislumbra que é seu próprio destino que o homem desafia através da derrisão do significante.
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Ou seja, Lacan enfatiza que, na prática, a metáfora e a metonímia estão intrinsecamente ligadas e se produzem mutuamente; toda metáfora é atravessada por uma metonímia, e toda metonímia é o fracasso de uma metáfora. São as leis que regem o significante, o sentido da letra, como o próprio subtítulo diz.
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A letra mata, pois ela torna refém o sujeito da articulação significante, da rede simbólica, refém da linguagem. Mas também é pela letra que o sujeito pode se haver com a vida, com todos os seus efeitos de verdade no homem, como diz Lacan e permitiu a Freud nomear o inconsciente, através dos chistes, atos falhos, sonhos e sintomas, todos estruturados como uma linguagem.
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Priscila Fernandes - Analista da Escola EPE
Texto 2 - Linguisteria 2
Priscila Fernandes
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No subtítulo: a letra no inconsciente, é toda estrutura em funcionamento do significante que Lacan vai articular através da interpretação dos sonhos de Freud, obra inaugural de sua teoria do inconsciente.
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Lacan diz que na Ciência dos sonhos, trata-se apenas, em todas as páginas, daquilo a que chamamos a letra do discurso, pois esse texto abre com sua obra a via régia para o inconsciente.
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As imagens do sonho só devem ser retidas por seu valor de significante, isto é, uma estrutura de linguagem que possibilita a operação da leitura, leitura na qual que permite o analista decifrar, como nos diz Lacan, e não decodificar, como acreditam muitos analistas fazerem. Decifrar significa interpretar ou ler o que está obscuro ou ilegível e o analista faz isso através da dialetização da cadeia significante que se apresenta no discurso do analisante.
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Lacan nos diz que podemos encontrar as duas vertentes da incidência do significante no significado na precondição geral da função do sonho, sendo elas a condensação, que é a estrutura de superposição dos significantes em que ganha campo a metáfora e o deslocamento, que é o transporte da significação que a metonímia demonstra.
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Lacan coloca que Freud, na análise do sonho, não pretende dar-nos outra coisa senão as leis do inconsciente em sua extensão mais geral, mas não podemos perder de vista que a eficiência do inconsciente não se detém no despertar, pois o inconsciente não deixa fora de seu campo nenhuma de nossas ações.
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Lacan introduz a função do sujeito dialetizando a fórmula “penso, logo existo”, chegando a “penso onde não sou, logo sou onde não penso”, o que cumpre dizer é que eu não sou lá onde sou joguete de meu pensamento; penso naquilo que sou lá onde não penso pensar, ou seja, o S e o s do algoritmo saussuriano não estão no mesmo plano, o sujeito é descentralizado.
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A metáfora está ligada ao sintoma no sentido analítico, produz um efeito de sentido novo, condensando significados e o desejo, a metonímia, onde há o deslizamento de sentido: o significante não se fixa, mas aponta para outro, numa cadeia sem fim. E é toda essa estrutura em funcionamento que a análise do sonho desvela, a estrutura da linguagem que o significante vem fazer a função com seus efeitos de linguagem metafóricos e metonímicos, abrindo espaço para o sujeito advir onde o isso estava.
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Priscila Fernandes - Analista da Escola EPE
