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Linguisteria 3

​Um grupo de leitura crítica, focado na ruptura com conceitos filosóficos tradicionais e na ênfase na psicanálise como uma prática que rompe com a metafísica clássica. O grupo busca questionar as noções de verdade, sujeito e linguagem, promovendo uma reflexão sobre as implicações clínicas de suas ideias.

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Índice de Textos

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Notas sobre o Inefável

Aline Dornelles

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O texto do segundo enlace da obra Outro Lacan de Alfredo Eidelsztein nos apresenta o mais frequente equívoco da letra lacaniana: tomar o impossível lógico como inefável, e sobre o inefável, Lacan o escamoteou: se é inefável então não se fala disso.


Levanto a questão: qual foi o desconforto gerado nos lacanianos frente ao impossível lógico que fez com que os mesmos aderissem com furor ao inefável? Seria uma lacuna clínica, teórica ou as duas?


O impossível lógico matemático é impossível(diferente de inefável) para o sujeito da ciência, que é o sujeito que opera a psicanálise. Esse sujeito científico é aquele que se coloca em posição de questionamento e busca, alimentando a força motriz de uma análise.


Lacan não sabia, na década de 60, como estava enganado ao pensar que estávamos muito longe de transformar o termo inefável, quase na centralidade dos equívocos de seu ensino.
Surfando na onda do inefável, pega carona também o indizível. Esse com duas vertentes: prazerosa para quem a sustenta e a outra articulada a mística. Segue o exemplo:


“A imaginação do furo tem, certamente consequências: por acaso será necessário evocar sua função” pulsional” ou, melhor dizendo, o que dela deriva? A conquista da análise foi tê-la convertido em matema, enquanto outrora a mística atestava sua existência fazendo dela o indizível. Mas permanecer nesse buraco reproduz a fascinação com a qual o discurso universal mantém seu privilégio, mais ainda, o faz ganhar corpo, pelo discurso analítico.”


Como se pode ler nessa citação, para Lacan se o pulsional é tratado como indizível, viramos místicos. À psicanálise cabe convertê-lo em matema.

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Aline Dornelles
AE/EPE

Gozo como Predicação: A Resposta de Lacan ao Substancialismo

Patrícia Mezzomo

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Eidelsztein finaliza seu Outro Lacan trazendo à baila talvez o assunto mais complexo e polêmico da obra lacaniana: o gozo.

 

Tema de muita confusão, que escancara o aristotelismo do nosso raciocínio ocidental: a "substância gozante" tornou-se corporal por seus continuadores e nos arremessou ao projeto biológico tão caro à nossa modernidade. Mas se, desde sempre, Lacan fala a mesma coisa em sua obra, por que não seria diferente com mais esse tema?

 

Nas palavras dele: “mas que a definição mesma de um corpo é que seja uma substância gozante, como é que ainda ninguém o tenha enunciado?”

 

Será que é porque o inconsciente vem sendo erradicado da lógica psicanalítica em nome de um corpo real que goza? 

 

Mas se essa fosse mesmo uma lógica proposta por Lacan, por que ele teria se dado ao trabalho de criar uma terceira substância e não simplesmente atribuir à res extensa, aquela tridimensional, o gozo que Miller afirma ser do corpo? Por que criar outra substância para tratar da mesma coisa? Não faz sentido, é claro. Não faz sentido porque não é a mesma coisa. A res extensa não é a res gozante.

 

Como nos diz Eidelsztein, “a proposta de Lacan parte da pergunta: como ninguém se deu conta de que, além da substância pensante e da substância extensa, e das categorias aristotélicas, era necessário enunciar uma substância gozante?”

 

Talvez seja porque apenas cientes de que Lacan sempre anunciou que seu ensino é sobre linguagem, é que podemos articular a lógica de uma nova substância ao seu significante: “O louco está em esquecermos de que o “ser” provém do fato da linguagem e que nos engana porque parece haver substância, embora o suporte seja o intervalo, a fenda, o furo pré-ontológico”.

 

Novamente, é da confusão sobre o "ser" que estamos tratando aqui, sobre essa "mania" ocidental de materializar as coisas. O que vemos em Lacan é um caminho paralelo ao da ciência: assim como a ciência materializa seus objetos com fórmulas e equações, Lacan equaciona a linguagem, o furo e o sujeito. Ele materializa a insubstância.

 

Não parece ser possível entender a proposta de Lacan se não entendemos de onde ele parte, e é isso que o autor do Outro Lacan nos adverte do início ao fim: a leitura filosófica, humanista e heideggeriana da obra lacaniana é uma traição ao seu projeto científico lógico-matemático para a psicanálise.

 

A necessidade de Lacan de produzir uma "substância gozante" foi para localizar seu significante e seus efeitos, já que é o significante a causa do gozo. A origem em Lacan não está em Deus (como está para Descartes), mas na linguagem, no significante que é sempre do Outro barrado. Esse significante não "pensa" (como o cogito) e se distingue do tridimensional, já que admite objetos que se interpenetram (topologia).​

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Ou seja, para pensar a substância gozante, recorremos à linguagem, à matemática e à topologia. Mas como fazemos isso?

 

Eidelsztein nos orienta a pensarmos a relação corpo-gozo assim como pensamos significante-sujeito: como conceitos circulares, onde não há possibilidade de definir um sem o outro. Por isso não se trata de libido ou pulsão de morte, mas da cadeia articulada da estrutura da linguagem.

 

Na estrutura intervalar, S1 avança em direção a S2, pois um significante sempre pede outro significante. E S2 retroage sobre S1. Esse avanço seguido da retroação faz um "desenho" que Lacan chama de bucle, uma espécie de laço. A linguagem, para Lacan, não é uma linha reta (S1 → S2 → S3). A linguagem opera em bucle. E, ao fazer laço, faz furo. A retroação fecha o laço, criando um circuito fechado. E todo circuito fechado, em topologia, tem um furo no meio. É um "desenho" criado no dizer.

 

Em síntese, poderíamos dizer da seguinte maneira: o corpo é o que eu digo do corpo e esse dizer em avanço e retroação forma o laço, ou seja, forma o bucle “furado”.

 

Isso é o que significa dizer que o corpo lacaniano não é o corpo extenso (3D) de Descartes, nem o "organismo biológico" (de Miller). O corpo da psicanálise, o corpo que goza, é um corpo topológico, que é literalmente criado ex nihilo (do nada) pela "eficácia da linguagem" ao fazer laço.

 

O "corpo-gozo", não tridimensional, não euclidiano, “articula-se essencialmente a um conceito destacadamente abstrato da topologia moderna: um espaço, o espaço compacto, que articula infinito e finito”. Por isso Lacan nos dá a ordem lógica da sua substância: 1°) substância gozante (significante, furo) e 2°) substância pensante e depois a extensa.

 

A "substância gozante" é o conceito que Lacan cria para essa "insubstância". E o gozo? Como diz Eidelsztein, é o que acontece nesse furo, é o lugar da predicação: "no furo significante que se cria o lugar da existência do gozo como predicação. Lacan está postulando o valor do furo e suas predicações, sustentados em uma teoria do significante."

 

O Furo (criado pelo bucle S1-S2) é o Suporte Lógico (o hypokeimenon lacaniano, um suporte que é um vazio, uma "insubstância"). E o gozo é a Ousia lacaniana, é o que vem predicar esse furo. É o que "acontece" nesse lugar vazio. 

 

Portanto, "o gozo como predicação" significa que o gozo não é uma "coisa" (substância material), mas um atributo lógico, um "efeito" que só pode ser dito sobre o furo que a linguagem criou. É por isso que, para Lacan, o gozo é um efeito da linguagem, enquanto para Miller, o gozo é a causa (que vem de um corpo biológico pré-linguagem).


A resposta direta à pergunta “O que acontece no furo?” é: O gozo enquanto predicação.

A criação das verdades eternas - Da escada ao muro

Patrícia Mezzomo

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Se a ciência ameaça a onipotência divina, Descartes entra para história como aquele que salva Deus e a ciência. Não se trata de pouca coisa e o tempo nos prova isso, marcando a importância deste homem para a humanidade.

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A transição do medieval para o mundo moderno é marcada por perdas e rupturas, e Descartes é o homem que tenta resolver o conflito entre a fé e o novo saber que surgia.

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O Deus de Tomás de Aquino reinava sob o mundo, numa espécie de analogia que o conectava ao homem de forma nebulosa. Ao mesmo tempo em que se apresentava como um mistério insondável, Ele também estava presente em tudo, a ponto de, em um  simples procedimento cirúrgico, emergirem questões teológicas sagradas. A ciência era tímida porque o mundo era "encantado" e cheio de mistério divino.

 

É nesse contexto que a matemática surge como uma ameaça à alteridade e o mundo começa a se abalar diante da chacoalhada científica que estava prestes a surgir, abrindo as portas do mundo moderno. Galileu e a nova física propõem uma univocidade: a matemática dos homens é igual à de Deus. Isso "humaniza" e abala o Deus do medievo. O homem se empodera: ele não precisa mais rezar para entender a chuva, ele a calcula. O preço disso seria transformar Deus num mero "Grande Geômetra", submisso às leis matemáticas.

 

Mas esse Deus castrado pela matemática não é aceito por Descartes, que faz sua manobra radical de colocar a vontade de Deus acima da lógica. As "velhas soluções" não serviam mais para explicar a nova física. E as "novas soluções" ainda não tinham nascido completamente.

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Descartes então dá luz à sua tese da "Criação das Verdades Eternas" operando um corte: De um lado o Criador e do outro a criação. Deus, em seu reino de equivocidade, criou as verdades, inclusive as matemáticas, que são imutáveis e fixas. Aqui embaixo, reina a univocidade e podemos fazer ciência tranquilamente, pois Deus não vai mudar as regras do jogo.

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Mas ele não era um beato medroso que se obrigava a falar de Deus por receio da inquisição. Pelo menos, não parece ser essa a opinião de Gaufey: “o distanciamento sem limite do Deus é uma necessidade rigorosa no interior do pensamento cartesiano”. Descartes PRECISA desse Deus Infinito e incompreensível. Por quê?

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Porque sem essa "Outridade Radical", o sujeito ficaria preso no solipsismo ("só eu existo"). A ideia de Infinito é a única que eu tenho em mim, mas que não posso ter criado, pois sou finito. É a falha em compreendê-la que prova que ela veio de fora.

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A onipotência divina só funciona como fundamento da ciência se ela estiver excluída da ciência. Ou, como diz Le Gaufey: "A onipotência só atua como fundamento epistemológico ao se excluir da episteme". Se Deus estivesse "dentro" da ciência, Ele estaria sujeito a erros e dúvidas. Estando fora (excluído), Ele garante a certeza.

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A certeza cartesiana, portanto, não vem de "abraçar Deus", mas de "bater nesse muro que dividiu o mundo":

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Eu penso; Eu encontro um limite que não compreendo; Esse limite prova que existe algo Real fora de mim; Logo, não estou sonhando: o mundo existe.

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Assim, Descartes salva a religião da ciência e salva a ciência da religião, mantendo Deus livre e incompreensível e garantindo um mundo mecânico livre para estudo.

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O que antes era uma escada, uma hierarquia permeada pela presença divina, de ponta a ponta, agora é muro, agora é corte. Res-extensa e Res-cogitan. A dualidade cartesiana abrindo espaço para Deus e homem co-habitarem o mundo. Matemática e corpo para cá, pensamento e teologia para lá. Tudo salvo, seguimos o “baile”. Grande Outro de um lado, eu (ego) do outro.

 

Mas e o sujeito?

O corte cartesiano expulsa o sujeito da equação e funda o sujeito da ciência. Caberá a Freud e Lacan, séculos depois, abrir espaço onde havia apenas o corte. Não à toa Lacan irá nos propor sua nova substância, uma outra res, res-gozosa para dar conta do que nem Deus nem a ciência conseguiram abarcar: o sujeito da linguagem.

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