Linguisteria 4 - História do estruturalismo
Objetivo:
Ler, resenhar e comentar os dois volumes do livro “História do Estruturalismo” do historiador François Dosse que reconstitui as questões teóricas, institucionais e existenciais do estruturalismo e as organiza em dois grandes períodos distintos: o de sua ascensão em 1945, até seu apogeu no ano de 1966, objeto do primeiro volume, e o de seu declínio, a partir de 1967, tema do segundo volume.
Índice de Textos
Do Homem ao Significante: uma ruptura de paradigma
Aline Dornelles
Há momentos na história do pensamento em que não muda apenas aquilo que sabemos. Muda o próprio lugar de onde passamos a olhar. François Dosse descreve um desses momentos ao narrar a transformação do cenário intelectual francês na segunda metade do século XX. O que está em jogo não é uma simples sucessão de autores influentes, nem uma disputa de prestígio acadêmico. O que se anuncia é uma transformação profunda na maneira de conceber o homem, o conhecimento e a própria produção do saber. Ou, para utilizar a formulação de Thomas Kuhn, trata-se de uma verdadeira mudança de paradigma: um deslocamento das perguntas fundamentais, dos métodos considerados legítimos e das respostas que passam a organizar uma determinada comunidade intelectual.
Durante décadas, a consciência ocupou o centro da cena. O homem era pensado como origem de seus atos, fundamento de suas escolhas e autor de sua história. A figura do intelectual engajado sintetizava essa confiança. Cabia a ele interpretar o mundo, denunciar injustiças, tomar posição diante dos acontecimentos e orientar os rumos da sociedade. A palavra intelectual possuía quase uma dimensão profética. O sujeito aparecia como senhor de sua fala e de seu destino. Havia uma confiança considerável na capacidade da consciência de apreender a si mesma e transformar a realidade.
François Dosse reconstrói esse momento histórico através de uma imagem particularmente expressiva: o eclipse de uma estrela. A estrela em questão é Jean-Paul Sartre, cuja presença dominou a vida intelectual francesa durante décadas. Não se tratava apenas de um filósofo célebre, mas da própria encarnação do intelectual universal, aquele que reivindicava o direito — e até mesmo o dever — de intervir nos grandes debates de seu tempo. Sartre representava a confiança na liberdade humana, na consciência e na capacidade de o sujeito fazer a história. Contudo, Dosse mostra que essa posição começa a sofrer um desgaste progressivo. As ambiguidades diante do comunismo soviético, as rupturas sucessivas com antigos companheiros de percurso intelectual e a emergência de novos campos de investigação produzem um deslocamento do interesse teórico. Aos poucos, o homem da decisão, do engajamento e da ação histórica deixa de ocupar o centro da cena. O que passa a interessar não é mais a consciência que escolhe, mas as condições que tornam essa escolha possível.
É precisamente nesse contexto que emerge o estruturalismo. Não como uma escola homogênea, mas como uma nova maneira de formular problemas. A pergunta deixa de ser "o que o homem pensa?" ou "o que o homem deseja?" para tornar-se "quais estruturas tornam possíveis aquilo que ele pensa e deseja?". A consciência deixa de ocupar o lugar de fundamento. Em seu lugar surge a investigação das relações invisíveis que organizam a experiência humana. O foco desloca-se do indivíduo para os sistemas simbólicos que o antecedem. Aquilo que parecia espontâneo passa a ser interrogado. Aquilo que parecia natural revela-se construído.
A oposição entre Sartre e Claude Lévi-Strauss, tal como aparece na narrativa de Dosse, adquire um valor quase paradigmático. De um lado, uma filosofia da consciência, da liberdade e da história. De outro, uma investigação das estruturas inconscientes que atravessam a cultura. De um lado, a figura do intelectual engajado que pretende falar em nome de seu tempo. De outro, o pesquisador que busca revelar as regras impessoais que
operam por trás das produções humanas. Não estamos diante de uma mera divergência teórica. Trata-se de uma transformação das próprias condições de produção do saber.
A ascensão de Lévi-Strauss representa exemplarmente essa mudança. Sua formação intelectual foi marcada pela busca de uma ordem capaz de explicar a extraordinária diversidade dos fenômenos humanos. A experiência etnológica lhe permitiu perceber que aquilo que parecia disperso, caótico ou exótico obedecia a regras rigorosas de organização. Os sistemas de parentesco, os mitos, os rituais e as formas de troca revelavam uma lógica que não dependia da consciência dos indivíduos que deles participavam. O que importa já não é aquilo que os homens acreditam fazer, mas as estruturas que operam através deles. O sujeito deixa de ser a origem da ordem para tornar-se um de seus efeitos.
Esse movimento ganha ainda mais força com a aproximação entre a antropologia e a linguística estrutural. A descoberta de que os elementos da linguagem não possuem valor por si mesmos, mas apenas pelas diferenças que mantêm entre si, produz uma verdadeira revolução intelectual. O sentido não nasce da substância das coisas. O sentido nasce das relações. Nenhuma palavra significa isoladamente. Ela adquire valor por sua posição dentro de uma rede. A partir desse momento, a noção de estrutura deixa de ser uma ferramenta restrita à linguística e transforma-se num modelo capaz de influenciar diversos campos do conhecimento.
É impossível não reconhecer nesse percurso um dos acontecimentos decisivos para a constituição do próprio ensino de Lacan. O chamado retorno a Freud não ocorre à margem dessa transformação paradigmática; ele se realiza em seu interior. Quando Lacan afirma que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, ele participa dessa ruptura epistemológica que atravessa as ciências humanas. Freud já havia demonstrado que o sujeito não era senhor em sua própria casa. Lacan radicaliza essa descoberta ao mostrar que aquilo que fala no sujeito obedece às leis do significante. O inconsciente deixa de ser concebido como um reservatório de conteúdos ocultos e passa a ser pensado como uma estrutura organizada, dotada de uma lógica própria.
A consequência clínica dessa virada é profunda. O analista já não escuta apenas relatos de vida, opiniões ou experiências individuais. Escuta a incidência da linguagem. Escuta as repetições, os equívocos, os lapsos, os sintomas e as formações do inconsciente como efeitos de uma articulação significante. O sintoma deixa de ser compreendido como um acidente psicológico ou um defeito da personalidade. Ele passa a ser lido como uma formação estruturada, cuja lógica precisa ser decifrada. O sujeito fala, mas sua fala é atravessada por determinações que escapam à sua consciência.
Talvez seja justamente esse o aspecto mais fecundo do estruturalismo para a psicanálise. Ao contrário do que afirmam algumas leituras apressadas, ele não elimina o sujeito. O que ele coloca em questão é uma determinada imagem do sujeito: a imagem de um eu transparente, autônomo e plenamente consciente de si mesmo. O sujeito que emerge dessa transformação não é o indivíduo soberano do humanismo clássico. É o sujeito dividido, atravessado pela linguagem, constituído no campo do Outro e permanentemente confrontado com aquilo que escapa ao seu domínio.
Por isso, acompanhar o percurso reconstruído por Dosse significa muito mais do que revisitar um episódio da história intelectual francesa. Significa testemunhar o momento em que a consciência perde seu lugar privilegiado e a estrutura assume o centro da reflexão. Significa assistir ao nascimento de um novo paradigma, no sentido mais rigoroso proposto por Kuhn. E significa compreender como esse deslocamento abriu as condições para que Lacan formulasse uma das teses mais subversivas da modernidade: a de que o sujeito não coincide consigo mesmo porque é constituído pela linguagem que o precede. Talvez continue sendo essa a ferida narcísica que o estruturalismo e a psicanálise insistem em manter aberta: a constatação de que aquilo que acreditamos ser mais íntimo e mais próprio já se encontra, desde o início, habitado pelo Outro.
Aline Dornelles
AE\EPE
Texto produzido para o grupo de Linguisteria 4/ História do Estruturalismo Junho/2026
Notas sobre a Introdução e Jean-Paul Sartre
LINGUISTERIA 4 - Encontro de 24 de junho de 2026
Josiane Tibursky
A queda da influência de Jean-Paul Sartre e o nascimento do estruturalismo correspondem a uma mudança profunda na maneira de conceber o sujeito. Para Sartre, “a existência precede a essência”, ou seja, não há uma natureza humana prévia, cada indivíduo se faz por meio de suas escolhas. Logo, a consciência ocupa um lugar central — mesmo condicionada pelas circunstâncias, ela conserva uma capacidade de autodeterminação.
Contudo, ao final dos anos 1950, os intelectuais passaram a considerar que essa concepção atribuía m privilégio excessivo ao consciente. E esse período, de forte consciência crítica, tinha na linguística a “ciência-piloto que orienta[va] os passos da aquisição científica para as ciências sociais, em geral”, que buscavam seu lugar ao sol. Ficava claro, a partir da linguística e da antropologia, que o sujeito não domina a língua que fala, que as estruturas sociais precedem os indivíduos, que a cultura obedece a regras inconscientes e que a história não pode ser explicada apenas pelas intenções individuais. A pergunta deixa de ser “Como o sujeito cria o mundo?” e passa a ser “Quais estruturas tornam possível a emergência do sujeito?”. E é justamente esse deslocamento que caracteriza o estruturalismo.
O estruturalismo, cuja grande inspiração é a linguística de Saussure, não nasce como uma escola única, mas como um conjunto de trabalhos que compartilham uma mesma hipótese: a de que as relações entre os elementos importam mais do que os elementos isolados. A ideia central é de que o sentido não provém de uma intenção subjetiva, mas das diferenças existentes dentro de um sistema. Os expoentes desse modelo, que o levam a outros campos, são Claude Lévi-Strauss, na antropologia, Roland Barthes, na semiologia, Louis Althusser, no marxismo, e Jacques Lacan, na psicanálise.
Para além da importância da mudança que ocorre a partir da nova concepção de sujeito, algo muito precioso para Lacan é que o estruturalismo é o meio que permite tanto que a psicanálise, quanto a linguística, a sociologia e a antropologia, se apoiem num modelo científico.
Estruturalismo - do apogeu à queda
Patricia Mezzomo
Aventurar-se no prefácio de François Dosse a respeito da história do Estruturalismo nos dá a nítida percepção de estarmos revivendo a história da psicanálise, de Freud a Lacan. Com uma vida mais curta, porém, o estruturalismo perece justamente por ter falhado em duas grandes dimensões que a psicanálise sustenta: o Grande Outro barrado e o Sujeito.
A história das ciências nos revela um fato comum: a incrível tendência humana de buscar nas ciências (ou nas religiões) uma solução absoluta para as questões do mundo. Dosse nos apresenta em seu prefácio o que parece ser uma repetição dessa mesma ambição: o Estruturalismo enquanto uma nova “teoria de tudo”. Foi assim com Descartes, com Hegel e com Frege. Aparentemente, o movimento estruturalista seguiu a mesma lógica, nutrindo a ambição de constituir um único e vasto programa de análise aplicável a todos os campos do saber.
Criado a partir da descoberta da estrutura da linguagem por Ferdinand de Saussure, o Estruturalismo pôde ser exportado para outras disciplinas. Tornou-se o molde dos estudos das ciências sociais que ambicionavam legitimação erudita e institucional; viria a ser conhecido nos Estados Unidos sob o selo de French Theory. As ciências humanas viam nele a possibilidade de emancipação — um rompimento do cordão umbilical que as atrelava à filosofia —, conferindo-lhes a validade de um método científico. O estruturalismo tornava-se, portanto, um movimento de pensamento, uma nova forma de relação com o mundo, muito mais amplo do que um simples método específico de pesquisa.
Durante um período, foi possível acreditar no sucesso absoluto desse novo pensamento francês que parecia ganhar o mundo. Sua idade de ouro ocorre nas décadas de 50 e 60, constituindo-se na filosofia comum às ciências que postulam o inconsciente como lugar da verdade: a linguística, a antropologia e a psicanálise. A ideia foi tão bem aceita que se espalhou por todos os lados, consagrando grandes mestres como Roland Barthes, Claude Lévi-Strauss, Michel Foucault, Louis Althusser e Jacques Lacan, todos engajados nessa promessa intelectual do final do século.
Mas, como toda ambição de totalidade, vemos a falha fazer sua marca e derrubar os anseios científicos de seus mestres. O Maio de 68 marca o início da queda. O Estruturalismo, que surgiu também como uma crítica à modernidade ocidental, sofre então seu mais duro golpe ao ser acusado de ter promovido o apagamento do sujeito.
É aqui que, mais uma vez, nos deparamos com a genialidade de Lacan que, ao se servir de uma teoria sem aderir cegamente a ela, garante um local à parte para a psicanálise. Lacan parecia estar sempre advertido do engano dessa ânsia totalizante que arrebata os corações humanos. Fez disso a sua marca, barrando o Grande Outro e instaurando a dimensão da falta ao criar o seu objeto a — aquilo que cai do sujeito. Justamente por estar ciente da falta e da barra, ele se serve do estruturalismo sem coadunar com o soterramento daquilo que vem a ser o objeto da psicanálise: o sujeito.
A partir daí, os caminhos se bifurcam, em uma divisão que espelha as próprias dissidências das escolas psicanalíticas pós-freudianas. O pós-estruturalismo e os pós-freudianos fizeram sua aposta no retrocesso, operando um retorno à substância, ao historicismo e à reinvenção do eu da consciência. Uma geração inteira, exausta do determinismo estruturalista, passou a reivindicar o resgate da agência humana, recusando um sujeito que fosse mero efeito passivo da estrutura. Esse nascimento do pós-estruturalismo evoca, fortemente, a entrada do pensamento pragmático inglês e americano na teoria freudiana.
Ao contrário desse movimento de recuo, Lacan opta pelo caminho aberto por Freud e pela linguística estrutural. Sua intenção não era tamponar ou apagar o sujeito, mas avançar para formalizá-lo com o apoio da lógica e da matemática.
O sujeito pós-estruturalista, portanto, destrona o sujeito da linguagem e tenta retomar a “casa” que havia perdido com a descoberta do inconsciente; ele agora quer operar no mundo de maneira autônoma, com ação deliberada e controle adaptativo. Enquanto isso, o sujeito da psicanálise ganha status científico-matemático, aproximando-se das teorias dos conjuntos e do vazio. Ele segue sempre como um efeito da falta no Grande Outro e subvertido do senso comum — esse mesmo senso comum que se tornou tão caro à nova intelectualidade do fim do século.
A metafísica da estrutura
Patricia Mezzomo
A década de 1950 é marcada por profundas transformações, esgotamentos e desilusões políticas. A intelligentsia francesa, órfã das ilusões do marxismo soviético pós-stalinista, encontra na linguística estrutural a saída intelectual para o modelo biográfico e linear da Velha Sorbonne, destronando a figura do herói engajado que marcou o início do século.
Sartre, a figura tutelar do pós-guerra, começa a ficar isolado a partir desse período. Seu existencialismo — que ditava a moda intelectual francesa assentado na liberdade radical do homem, na consciência soberana e no engajamento político do sujeito — passa a sofrer os efeitos de novas interrogações originadas pelas ciências humanas, que tomavam a linguística estrutural de Saussure como ciência piloto.
O estruturalismo nascente promovia uma abordagem que destronaria a filosofia da subjetividade sartreana. No novo modelo, a consciência e o sujeito livre desvanecem; o homem passa a ser apreendido como um elemento passivo, inteiramente determinado pela regra, pelo código e pela estrutura. O argumento estruturalista traz à tona a ilusão do Eu. A pretensa liberdade que Sartre propunha ao homem não passa de uma ilusão ingênua do ego, visto que o homem já nasce capturado e determinado pelas estruturas invisíveis da linguagem e da cultura. A estrutura veio ocupar o lugar do "Sujeito Soberano" e da "Liberdade Absoluta", cobrando como preço o apagamento do sujeito. O ser humano deixou de ser o autor livre de suas escolhas para se tornar um mero efeito ou engrenagem das grades da linguagem, dos mitos e do inconsciente.
Nascia, a partir dali, uma nova alternativa à metafísica ocidental, que ambicionava dar conta do vazio deixado pelas crises religiosas e políticas do pós-guerra. Sartre recusa esse movimento. Despreza a linguística como uma "ciência menor" e fecha-se para a noção de inconsciente, insistindo que a biografia humana pode ser integralmente decifrada na práxis. Sua recusa em operar com o inconsciente e com a opacidade da linguagem fez sua obra tardia parecer um ensaísmo literário datado, abrindo espaço para o rigor estrutural.
Abria-se o campo para a idade de ouro do Estruturalismo, que mudaria para sempre a noção de sujeito. Ao longo de duas décadas, os mestres reinaram soberanos no ambiente acadêmico e midiático, como detentores do saber que há tanto acossa o humano: o saber sobre o sujeito. O estruturalismo passou a ser a língua comum de diversos saberes e, por um tempo, ele pareceu alcançar a autoridade absoluta que havia deixado seu lugar vazio desde as crises da modernidade.
Mas seus mestres, diferentemente de Deus, eram mortais. E foi concomitante ao falecimento deles — e em meio a discursos que tentavam romanticamente relacionar suas tragédias particulares a um suposto impasse da teoria enquanto resposta ao sujeito — que se testemunhou o declínio midiático da corrente estrutural dos anos 60 e 70.
O estruturalismo foi perdendo espaço na cena pública e em meio à crise provocada pelo apagamento do sujeito. Aparentemente, o ego sempre parece encontrar uma maneira de insurgir contra a hiância do sujeito! O pós-estruturalismo nasce, então, como uma “nova” velha resposta à subjetividade humana, abrindo caminho para o homem enquanto experiência positiva e existente. O pensamento pragmático anglo-saxônico ganha espaço nos domínios franceses e o eu ressurge, bifurcando os saberes de uma época. Testemunhamos o nascimento de uma era narcisista, de individualismo exacerbado que promove o retorno dos “velhos cavalos” do passadismo conservador e da abstração burguesa.
Mas a morte dos mestres apenas apagou sua popularidade midiática. O estruturalismo perdeu lugar nos holofotes para ganhar rigor acadêmico e se assentar como um solo incontornável das ciências humanas. Não mais soberano, mas estruturante, seu legado promoveu um novo olhar: o sujeito não mais apagado, mas formalizado.
Lacan, contrariando a fofoca midiática que afirmava ser ele um dos abatidos pela tragédia da falha da estrutura, ainda em vida encaminha a psicanálise para além do estruturalismo clássico. Não como uma substituição pelo ego ultramoderno, mas sim em direção às ontologias não ocidentais, que não apagam mas também não afirmam o sujeito. É na ontologia do vazio e da hiância e na topologia que ele extrairá as coordenadas para formalizar seu objeto a, dobrando a aposta no sujeito enquanto falta e mantendo sua honestidade intelectual intacta.
A despeito de sua morte, faz a psicanálise prosperar em núcleos duros da resistência, provando-nos que o lugar da verdade não se reserva aos holofotes, mas sim ao incômodo e ao árduo trabalho daquele que tem em si o desejo de saber.
Da Biologia à Cultura: Claude Lévi-Strauss
Patricia Mezzomo
A obra fundadora do estruturalismo faz da linguística o eco do ato galileano com a matemática. Ao aliar antropologia aos modelos formais da matemática e da fonologia, Claude Lévi-Strauss opera um descentramento comparável ao de Copérnico e Galileu: se no século XVII a Terra perde seu lugar no centro da criação cósmica, o pós guerra nos presenteia com o fruto do exílio de um herói. As Estruturas Elementares do Parentesco (1949) destronam a consciência, o ego e a soberania do homem ocidental como centro explicativo da vida social.
Nasce aí a figura tutelar do estruturalismo, revolucionando as ciências humanas ao tomar a proibição do incesto como a chave do problema antropológico. O ponto de partida para Lévi-Strauss é localizar no incesto o elemento universal invariante, situado no limiar exato entre dois mundos: pertence à natureza por ser uma interdição universal, espontânea a todas as sociedades, mas pertence simultaneamente à cultura por se manifestar por meio de regras, normas e restrições particulares.
Ao recusar as teses biológicas tradicionais, que explicavam a interdição pelo medo da degeneração genética, Lévi-Strauss redefine o tabu como uma regra positiva de criação social. Proibir o acesso no interior da própria família força o indivíduo a buscar alianças fora do seu grupo consanguíneo. O foco desloca-se, assim, da mera reprodução biológica para a fundação de redes sociais e políticas de troca. A interdição do incesto deixa de ser um limite moral e revela-se como a condição inaugural da comunicação e laço social humano.
Mas é do fecundo encontro com Roman Jakobson, durante seu exílio em Nova York, que esse passo ganha sua dimensão teórica. Ao assimilar a fonologia estrutural, o antropólogo descobre que o laço social funciona de forma homóloga à linguagem. A sociedade passa a ser compreendida como uma grande rede de signos estruturada em três níveis fundamentais de circulação: a troca de palavras, a troca de bens e a troca de mulheres.
A partir dessa virada, Lévi-Strauss importa para a antropologia o corte saussuriano, suspendendo a busca pelas origens históricas (a diacronia) para analisar a cultura como um sistema simultâneo de relações (a sincronia). Os termos de parentesco não possuem significado em si mesmos, adquirem valor exclusivamente pela posição e oposição que ocupam dentro de uma matriz simbólica inconsciente, da mesma forma que os falantes de uma língua utilizam as regras da fala sem precisarem ter consciência da estrutura fonológica que rege sua articulação.
Ao demonstrar que o laço humano não decorre do instinto natural, mas de uma codificação simbólica arbitrária, Lévi-Strauss liberta a antropologia do empirismo ingênuo e do determinismo biológico. O homem deixa de ser o autor deliberado de sua história para se tornar o efeito de uma ordem que o precede. Inaugura-se, assim, o império hegemônico da estrutura, que reinaria absoluto nas décadas seguintes ao provar que a cultura é, antes de tudo, uma linguagem inconsciente.
